Outubro/Novembro uma pinoia. Sim, o blog está parado há mais tempo que eu gostaria, e eu sei que meus oitocentos oito leitores estão decepcionados. Peço desculpas, mas é por uma boa causa – passei no concurso em questão. E isso significa mudança, e planos, e venda de apartamento, e pesquisa de apartamento na cidade de destino (São Paulo, provavelmente), etc. Ao mesmo tempo, veio outro concurso que pretendo fazer, com provas em Março. Acabo ficando sem tempo e foco para o site, o que é uma pena, especialmente em tempo de filmes tão relevantes como os recentes Django Livre, As Aventuras de Pi e Amor (esse, ao meu ver, especialmente arrebatador e merecedor do Oscar de melhor filme e qualquer outro prêmio que venha a concorrer). Repito o que disse, porém: prefiro não escrever do que me forçar e escrever por obrigação, o que inevitavelmente prejudicaria a qualidade dos textos.
Mas esse site precisava respirar, e tive uma ótima oportunidade através de uma crítica gentilmente cedida ao blog por meu amigo André Lessa. Lessa, que eu já sabia ser excelente escritor de ficção (e devia tirar os textos da gaveta), agora revela grande qualidade também como crítico, analisando o ótimo novo trabalho de Quentin Tarantino, Django Livre, em um texto fluido, maduro e rico. Espero que gostem.
De minha parte, fica mais um breve-até-breve. I’ll be back. Vocês duvidaram quando o Schwarzenegger falou, e olha ele aí. Agora, sem mais delongas e piadinhas sem graça, vamos a Django.
Django Livre (Django Unchained) – 2012, EUA. Direção: Quentin Tarantino. Elenco principal: Jamie Foxx, Christolph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, James Remar, Don Johnson, James Russo, Bruce Dern, M.C. Gainey, Jonah Hill, Zoe Bell, Robert Carradine, Tom Savini, Michael Parks, Franco Nero e Samuel L. Jackson. Duração: 141 minutos.
Sinopse: Django, um escravo, é resgatado pelo caçador de recompensas Schultz, que precisa de sua ajuda. Em troca, Schultz ajuda Django a resgatar sua esposa das mãos do cruel Sr. Candie.
Texto escrito por: André Lessa
Quentin Tarantino não tem pressa. Ao contrário de diretores como Woody Allen, que lançam praticamente um filme por ano, sua filmografia se resume a 8 obras (7, se você considerar “Kill Bill” Vol. 1 e Vol. 2 como um filme só), ao longo de quase 20 anos. Se por um lado este fato reduz a possibilidade de tropeços, contribuindo para ele não ter sequer uma obra ruim no currículo, por outro aumenta perigosamente a expectativa, e a possibilidade de frustração, a cada trabalho, o que contribui para uma recepção morna caso o padrão de excelência não seja alcançado. Da mesma forma, e considerando que praticamente todos os grandes diretores possuem fracassos no currículo, existe sempre a possibilidade (e, é inegável, quase uma torcida mórbida) para que o mais novo filme de Tarantino seja aquele no qual ele finalmente sucumbiu ao próprio ego, perdeu a mão e tropeçou feio.
Bem, ainda não foi dessa vez. “Django Livre”, a homenagem do diretor ao gênero western, em especial os chamados “western spaghetti”, é excelente, e ainda melhor que o último filme do diretor, “Bastardos Inglórios”. O filme não só reúne o que há de melhor no estilo e na obra de seu realizador, como revela um inesperado frescor e, em certos aspectos, Tarantino se reinventa. E mais: não é o melhor, mas é o filme mais emotivo e, por incrível que pareça, político do diretor.
Em síntese, a trama é a seguinte: em 1858, dois anos antes da Guerra Civil americana, Django (Foxx), um escravo, é tirado das mãos de mercadores pelo caçador de recompensas Schultz (Waltz), que precisa de sua ajuda para localizar um novo alvo. Depois disso, Django e Shultz acabam virando parceiros e se unindo para resgatar a esposa de Django, Broomhilda (Washington), das mãos do Sr. Candie (DiCaprio), uma tarefa extremamente difícil.
Quase todas as “assinaturas” de Tarantino, como os zooms rápidos, estão presentes com abundância em “Django Livre”. A trilha sonora, como de hábito, é um completo show à parte. Não apenas cada música complementa e se enquadra perfeitamente em sua respectiva cena, mas dá vontade de correr para comprar o CD assim que acaba o filme. Além disto, ao misturar acordes/temas clássicos do western, como Ennio Morricone, com rap, dentre outros, ele ao mesmo tempo homenageia e subverte o gênero, de formas que poucos conseguem fazer. A exploração da violência, outra marca registrada do diretor, também se faz presente com maior intensidade do que nunca, seja em uma longa (e sangrenta) sequência de tiroteio, um confronto físico particularmente perturbador e repugnante ou belíssimos planos como sangue manchando campos de algodão branco. As brincadeiras com a fotografia aparecem em destaque nos flashbacks de Django e Broomhilda no passado, dando às cenas uma adequada aparência de sonho/delírio.
Junto com a violência, não falta humor negro ao filme, sendo todo o final do terceiro ato, em particular, um deleite neste sentido. Os diálogos circulares, abundantes e por vezes prosaicos, talvez a mais conhecida característica do diretor, obviamente percorrem toda a narrativa, embora de forma levemente modificada, conforme será comentado abaixo. Por fim, o roteiro extremamente amarrado, sem furos, atitudes inexplicáveis ou situações forçadas, confirma a habilidade do autor enquanto roteirista, como demonstra um detalhe aparentemente irrelevante que terá imensa importância mais à frente. Numa época onde os roteiristas cada vez mais parecem achar que basta criar grandes momentos de impacto, sem uma estrutura ou um encadeamento coerente entre os fatos, é um alívio ver o trabalho de quem realmente entende do ofício.
Mas Tarantino não se limita a velhos truques. Ao final do longa, resta a sensação de que o cineasta manteve o estilo, as marcas e a essência, mas não se repetiu. Não existe nesse filme a conhecida fixação em pés femininos, por exemplo. Da mesma forma, este é o primeiro filme de Tarantino desde Cães de Aluguel sem uma figura feminina marcante (sem a “musa”, por assim dizer), haja vista que a personagem de Kerry Washington, Broomhilda, tem muito pouco tempo de tela e participação secundária. Embora alguns possam considerar um defeito, penso que o autor merece aplausos por seguir o rumo que a narrativa pedia, ao invés de tentar incluir uma maior participação feminina de forma artificial. Até mesmo os diálogos “tarantinescos”, mesmo presentes, estão um pouco mais contidos, burilados, que o normal. Tarantino parece ter, finalmente, vencido sua compulsão em escrever, e filmar, mais diálogos do que o necessário, e não há no filme uma cena sequer que passe a impressão de ter alguma “gordura” para cortar. A habitual estrutura não-linear e repleta de flashbacks, mudanças de foco na narrativa e idas e vindas no tempo também é mitigada no filme, que talvez seja o mais convencional, em termos de estrutura, da carreira do cineasta (o que não é, de forma alguma, um defeito). Talvez seja uma maneira que o autor encontrou para compensar um pouco a ausência de sua inseparável montadora Sally Menke, falecida em 2010. De toda sorte, por mais que o trabalho de Menke fosse espetacular, a montagem deste filme, trabalho de Fred Raskin, é competente, fluida e eficiente.
Entretanto, todo este conhecido domínio técnico não pode ofuscar outra característica importantíssima da filmografia de Tarantino, e que neste filme está mais presente do que nunca: a qualidade das atuações. Não é exagero afirmar que todo o elenco de “Django Livre” está, no mínimo, excelente. Jamie Foxx está soberbo como o protagonista, ilustrando com segurança toda a transformação, todo o arco dramático do personagem ao longo do filme. Christoph Waltz, embora praticamente repita o seu Hanz Landa de Bastardos Inglórios numa versão boazinha, o faz com admirável e absoluta competência. Samuel L. Jackson tem sua primeira atuação de verdade em anos, espetacular e hipnotizante como alguém que é muito mais do que aparenta à primeira vista. Até o próprio Tarantino, que, convenhamos, enquanto ator, é um excelente diretor, está impecável (e gordo) em seus poucos minutos na tela. Em suma, todo o elenco brilha… mas Leonardo DiCaprio ofusca.
Ator sempre competente, mas por diversas vezes (e razões) subestimado, ele entrega talvez a melhor atuação de sua carreira, e a sua não indicação ao Oscar de ator coadjuvante é mais uma na longa série de injustiças pelas quais a Academia já é famosa. Com a linguagem corporal totalmente modificada, DiCaprio varia do caricato ao tenso, do cortês ao diabólico, com admirável naturalidade e desenvoltura. Algumas das cenas mais importantes do filme, sejam envolvendo aulas de frenologia, matilhas de cães ou apertos de mão, dependem totalmente do seu desempenho, e ele cumpre a tarefa com louvor.
Porém, talvez a melhor, e mais surpreendente, característica do filme seja a abordagem direta, clara e sem concessões, quase raivosa, que Tarantino faz da escravidão. Enquanto alguns diretores apelariam para discursos edificantes, diálogos expositivos, obviedades e afins, ele enfia o dedo na ferida com força, ao mesmo tempo em que entretém, diverte e conta uma saga de busca, vingança e, por que não, amor. A escravidão em momento algum é tratada em tom pedagógico ou buscando arrancar lágrimas da plateia, mas desafio alguém a me mostrar um filme recente que retrate os horrores da mesma de forma mais intensa que “Django Livre”. Uma cena em especial, envolvendo um crânio, expõe o racismo em toda a sua essência, dos argumentos pseudocientíficos à redução do ser humano a “minha propriedade”, de forma enojante.
“Django Livre”, como todos os filme de Tarantino, é diversão de primeira linha, repleto de ação, humor, diálogos mordazes, ironia, tiros, frases de efeito e deliciosos absurdos, mas também é uma crítica violenta e feroz ao racismo e à escravidão, bem como uma afirmação do poder de reação e de luta do negro contra a segregação e opressão racial (o que, ressalte-se, torna ainda mais incompreensíveis os protestos de Spike Lee e cia, que enxergaram num filme uma conotação racista que beira o absurdo). Ademais, o diretor, repetindo o que fez com Hitler em Bastardos Inglórios, também lança mão de um recurso tão ou mais eficiente que o ataque direto: a ridicularização. Existe no filme uma cena envolvendo uma espécie de precursores da Ku Klux Klan que já nasce antológica e, além de arrancar sonoras gargalhadas, tem mais a dizer sobre esta organização e seus membros que muitos filmes e cenas, digamos, “sérios”.
Além disto, esta se revela talvez a obra mais emotiva de Quentin Tarantino. Criticado muitas vezes por supostamente não apresentar intensidade emocional em seus filmes (injustamente, ao meu ver, haja vista cenas como o belíssimo final de Kill Bill Vol. 2), ele, fiel ao seu estilo, obviamente passa longe do melodrama, da trilha manipulativa ou de qualquer recurso fácil para fazer o espectador se emocionar. Porém os sentimentos estão ali, claros e palpáveis, seja no olhar do personagem que assiste impotente a um ente querido ser ameaçado, na expressão de quem não consegue ficar incólume aos horrores da escravidão, ou em lembranças de dolorosas (e inúteis) auto-humilhações, dentre outros exemplos. Tarantino com certeza não é o sujeito mais sensível do mundo, mas está deixando mais brechas de emoção genuína sob a fachada de humor negro e violência.
E quando, por fim, as luzes da sala de projeção se acendem, fomos presenteados com um excelente filme de um cineasta que, com apenas oito longas na carreira, exerce uma influência e possui um destaque inegáveis, e merecidos, na indústria. Um autor que vem se equilibrando com admirável habilidade na linha entre manter a essência e se reinventar. E, principalmente, vem demonstrando em seus últimos trabalhos um inesperado – e muito bem vindo – interesse em temas historicamente sensíveis e problemáticos, que aborda com sutileza e contundência sem apelar para panfletagem e tampouco se desviar da história contada. Um novo ingrediente que se encaixou muito bem em sua mistura habitual.
Se é assim que Quentin Tarantino gosta de trabalhar, que passem mais três anos até o seu próximo trabalho, se for preciso. Definitivamente, vale a pena esperar.
Cotação: *****



