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Arquivo da categoria ‘Coluna 6 Estrelas’

Hoje, 06 de Maio de 2012, o Luz, Câmera, Redação! completa 01 ano. Para comemorar, uma inauguração: a Coluna 6 Estrelas.

Coluna 6 Estrelas traz análises – mais detalhadas que o habitual – de filmes especialmente marcantes da história do Cinema. Por serem textos mais minuciosos, haverá spoilers – portanto, se você ainda não assistiu a um filme abordado na coluna, não leia a crítica.

Para inaugurar, analiso o filme que mais me impactou na minha vida de cinéfilo, a arrebatadora obra-prima Laranja Mecânica. Obrigado aos amigos e leitores que me presentearam com visitas, comentários e apoio neste primeiro ano do site. A coluna é uma retribuição a vocês.

Sem mais, pois Kubrick nos espera.

Laranja Mecânica (Clockwork Orange, A) – 1971, Reino Unido/EUA. Direção: Stanley Kubrick. Elenco principal: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Warren Clarke, Michael Bates, Adrienne Corrii, Miriam Karlin, James Marcus, Aubrey Morris, Sheila Raynor, Anthony Sharp, Philip Stone, Paul Farrell, Godfrey Quigley. Duração: 137 minutos.

Sinopse: Condenado à prisão por assassinato, Alex é submetido ao tratamento Ludovico, uma terapia que visa criar no paciente aversão física à violência.

Atenção: contém spoilers.

Laranja Mecânica é um marco na história do cinema e da arte. A influência da obra, adaptada de um livro homônimo de Anthony Burgess, é enorme e não se limita à Sétima Arte: o filme inspirou a música, a televisão, a literatura e chegou a virar apelido de uma seleção de futebol – a Holanda de 1974. Trata-se de um longa atemporal, capaz de atravessar décadas sem perder o impacto ou a força das discussões que oferece ao espectador.  Isto não acontece por acaso: é fruto de uma rara combinação de uma história absolutamente impactante, repleta de metáforas e leituras possíveis, com uma direção virtuosa de um dos maiores mestres do assunto, Stanley Kubrick.

A trama

Laranja Mecânica é protagonizado e narrado por Alex (McDowell), um jovem psicopata  fascinado por sexo, Beethoven e ultraviolência, absolutamente desprovido de compaixão ou respeito pela sociedade. No primeiro ato do filme, Kubrick concentra-se em mostrar para o espectador o quão repugnante é a personagem. Alex e seus amigos – que ele chama de drugues – espancam um mendigo (Farrell), dirigem irresponsavelmente provocando inúmeros acidentes, estupram a mulher de um escritor idoso, o Sr. Alexander (Magee), em sua frente – após enganar o casal pedindo ajuda, brigam na rua com outra gangue. Em todos esses atos, o grupo se diverte imensamente, gargalhando e cantando debochadamente. Desacompanhado, o protagonista não é menos reprovável: engana os pais e o consultor pós-correicional e agride uma senhora em um spa (acabando por matá-la). Em nenhum momento o longa torna seus atos perdoáveis sob qualquer perspectiva ou explica o que o leva a se comportar desta forma. É de sua natureza, o que é refletido até por seu nome (Alex – prefixo de negação grego ‘a’ acompanhado de ‘lex’, lei em latim – portanto, a antítese da lei).

                    

Alex, porém, é traído pelos parceiros – traição cuja semente foi plantada pela própria personagem, ao bater no drugue Dim (Clarque) após ele debochar de uma mulher cantando a 9ª Sinfonia de Beethoven – e acaba preso. Na cadeia, o protagonista passa dois anos auxiliando o padre (Quigley) para proteger-se até que, voluntariamente, torna-se cobaia do Tratamento Ludovico – uma terapia promovida pelo Governo (representado pelo Ministro do Interior, Fredrich [Sharp]) como forma de combate à criminalidade e à superlotação carcerária. No tratamento, um equipamento ligado ao cérebro do paciente causa fortes vertigens e um profundo mal estar enquanto ele vê imagens violentas e sexuais em uma tela, visando criar uma associação entre as coisas e impedir que a pessoa pratique a agressividade a partir daí – não por qualquer aprendizado moral, mas por impossibilidade física. A técnica é bem sucedida – Alex torna-se absolutamente incapaz sequer de reagir à violência alheia.  Involuntariamente, acaba também ligando ao mal estar o quarto movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven, executado durante um dos vídeos.

Então, como em um reflexo da vida que levava, cruza por acaso o caminho de quem havia agredido antes de ser preso e acaba sendo vítima de todos – o mendigo, seus drugues, o sr. Alexander. Este último não reconhece Alex de imediato, pois a personagem estava de máscara quando o atacou, e pretende usá-lo politicamente – era da oposição do governo e sabia estar diante da cobaia do Tratamento Ludovico. Contudo, quando o jovem canta Singin’ in the Rain em uma banheira, música que cantava e dançava durante a agressão, o escritor imediatamente faz a associação e induz o protagonista à tentativa de suicídio ao prendê-lo em um quarto e executar a 9ª Sinfonia.

Alex, contudo, não morre – ao acordar em um hospital, lembra-se de um sonho envolvendo uma cirurgia cerebral. O protagonista volta a ter o tom debochado e cínico de antes do Tratamento – é sarcástico com os pais, volta a usar uma linguagem descontraída e responde agressivamente a questões de um teste feito com uma psiquiatra. Entra no quarto, então, o Ministro do Interior, propondo ao protagonista uma parceria – em troca de apoio (já que a imprensa e a sociedade haviam se voltado contra o Método Ludovico), daria um bom emprego ao jovem, o que ele imediatamente aceita. Finalmente, o longa nos mostra uma fantasia de Alex fazendo sexo em meio ao aplauso de homens e mulheres vitorianos, enquanto o protagonista/narrador decreta: “Eu estava curado”.

Alex, uma Laranja Mecânica

“Tão bizarro quanto uma laranja mecânica”. É desta estranha expressão anglo-saxã que Anthony Burgess retirou o nome do livro que inspirou a obra-prima de Stanley Kubrick. Burgess, contudo, não optou por este título somente para sugerir que sua história é bizarra. A escolha foi mais ambiciosa: retratou, com brilhantismo, o delicado conflito entre natureza e condicionamento comportamental de que trata sua trama.

A laranja é inequivocadamente um elemento puro da natureza – ou ao menos era, deixando de lado a transgenia, que não existia quando o livro foi lançado e apenas engatinhava na época do filme. Embora existam diversas variações, todas são naturais. Se o homem pudesse interferir na fruta e transformá-la em algo “mecânico”, ela continuaria sendo uma laranja? Em outras palavras, até que ponto modificações artificiais em um objeto puramente natural mantêm a essência deste objeto?

Alex, como dito anteriormente, é a antítese da lei, a personificação da violência e do sadismo – algo jamais justificado ou nunca mostrado como passível de reversão. Através do Tratamento Ludovico, torna-se o oposto do que era antes – alguém incapaz de fazer qualquer mal.  A transformação é absolutamente artificial – não há a menor alteração nos seus instintos, como o próprio narrador deixa claro ao ver uma mulher nua e dizer que desejava possuí-la naquele mesmo momento, no chão, embora não consiga. Alex tem a natureza bloqueada pela modificação humana. É, o protagonista, a própria laranja mecânica do título – o que fica claro no dicionário Nadsat, a língua inventada pelo autor, que traduz “orange” como “homem”, opção provavelmente decorrente da semelhança entre o nome da fruta, em inglês, e o nome “orangotango” (orangutan, em inglês), animal que se assemelha ao homem.

E um indivíduo de natureza mecânica continua sendo um homem? O que define um indivíduo é sua essência ou a externalização desta essência, o seu comportamento? É esse o questionamento trazido pelo padre do presídio, personagem chave desta discussão, que diz categoricamente para Alex: “bondade é escolha. Se você não tem escolha, você não é homem”. Um ataque direto ao Behaviorismo, campo da psicologia desenvolvido por John Watson que se opunha à psicologia mental por defender que o objeto de estudo de sua área devia ser o comportamento, não a consciência.

                    

Sem trazer respostas prontas, Laranja Mecânica provoca reflexão sobre o assunto. À primeira vista, o Tratamento Ludovico parece uma solução positiva. Alex era voluntário, sairia da cadeia e não mais cometeria os atos que o tornavam repugnante. Ademais, a única voz dissonante era de um homem mais preocupado com aspectos religiosos que práticos de suas opiniões – tão identificado com sua fé que sequer tem o nome dito no longa, sendo caracterizado apenas como padre. Depois da terapia, contudo, o protagonista se torna vítima fácil da violência que antes praticava. Alex fica absolutamente frágil – o que chega a despertar a simpatia do espectador pela personagem que antes detestava, em um belo exemplo da identificação que a fragilidade pode provocar – o que é fortalecido pelo ótimo trabalho de Malcolm McDowell, que transforma a expressão de maneira a quase se tornar outra pessoa. O público passa a ter pena do anti-herói – e, possivelmente, questionar a validade ética do Tratamento.

É aí, contudo, que o filme dá outra reviravolta. Após Alex ser vítima de um ato de violência extrema – ser induzido à tentativa de suicídio – a população passa a ser contra o Tratamento que antes apoiava. O governo, então, muda de lado com a facilidade que lhe é peculiar e, buscando seu apoio, altera novamente o cérebro do protagonista, levando-o novamente ao estado original. McDowell, então, novamente dá um espetáculo de atuação ao, preso em uma cama e cheio de bandagens, retratar a violência e o sarcasmo que volta a guiá-lo somente no olhar e na maneira de comer – agora, contudo, com um bom emprego público e o aval da sociedade, como mostra sua visão psicodélica sendo aplaudido por damas e cavalheiros distintos ao fazer sexo com uma mulher. Fica claro que, com dinheiro e apoio, a repugnante natureza violenta de Alex terá ainda mais espaço para manifestar-se. E isso desperta novamente dúvidas sobre as vantagens dessa “volta às origens”.

                    

Afinal, será que é realmente válido preservar uma natureza que agride o Estado? Ao longo do filme, ouvimos duas vezes que Alex está sendo, de alguma forma, curado. Na primeira, a manifestação vem de um terceiro, uma assistente do médico que aplica o Tratamento: “Pessoas boas sentem medo e náusea com violência, você só está ficando saudável”. Na segunda, quem diz é o próprio narrador, em sua última fala: “Eu estava curado mesmo”. Evidentemente, a primeira cura é social, a segunda, pessoal.  De certa forma, o governo inicialmente deixa Alex doente como indivíduo para torná-lo saudável socialmente – e depois inverte o processo. O questionamento é: qual o limite de restrição de natureza individual em benefício da sociedade?

Finalmente, é interessante observar ainda as alterações na forma com que o protagonista é chamado e como isso reflete seu papel ao longo da trajetória. Inicialmente, quando era a oposição da lei em estado puro, era apenas Alex. Após a prisão, o roteiro, em uma notável ironia, flerta por um momento com a utopia de a cadeia ressocializar alguém ao dar pela primeira vez nome completo à personagem (Alexander DeLarge) para logo depois tirar completamente sua individualidade ao passar a tratá-lo por um número, 655321. Quando opta pelo tratamento, domesticado, passa a ser chamado de Alexander deLarge. Finalmente, após a cirurgia que recupera seu instinto violento, o Ministro o pergunta: “Posso chamá-lo de Alex?”.

Uma pergunta que fecha um círculo na trajetória do protagonista, amarra sua história com grande elegância e torna o arco dramático de Alex um dos mais fascinantes e inteligentes da história do cinema.

Direito e Política

Além de confrontar indivíduo e sociedade, outros aspectos interessantes de Laranja Mecânica são a discussão que suscita sobre a função da pena no Direito e a poderosa metáfora sobre a forma como geralmente dá-se o jogo político na sociedade.

Ao aceitar ser paciente voluntário do Tratamento Ludovico, o protagonista imediatamente sai da cadeia. O raciocínio é simples: se ele não mais representará uma ameaça para a sociedade, não precisa estar preso. O diretor da prisão (Michael Gover), porém, discorda e assina sua liberação a contragosto. Para ele, o Estado deveria se vingar de Alex – “olho por olho, eu digo. Se alguém bate em você, você revida, não é? Por que o Estado, severamente agredido por vocês, hooligans, não deveria revidar? A nova política é dizer não. A nova política quer transformar o mal em bem. Tudo isso me parece tremendamente injusto”.

Esta dualidade nada mais é que o confronto entre a função absoluta e relativa da pena, também chamadas, respectivamente, função retributiva e prevencionista. Para a absoluta, defendida por Kant, a pena deveria retribuir moralmente a agressão feita pelo contraventor – portanto, ainda que ele deixe de representar uma ameaça para a sociedade, deve ser punido. Já quem defende a postura relativa pensa que a pena deve somente prevenir novos crimes – logo, se Alex é incapaz de novos atos violentos, deve ser solto. Mais uma vez, o filme não traz respostas a respeito – apenas provoca no espectador o questionamento e a reflexão.

A política, por sua vez, é representada principalmente pelo Ministro do Interior, Fredrich. Representante do Estado, o Ministro em nenhum momento preocupa-se com as consequências éticas do Tratamento Ludovico ou com o bem-estar do protagonista ou da sociedade. Seu foco é somente a manutenção do poder. Quando recruta os presos para a terapia, diz algo que, embora fundamental para a compreensão de seu papel, muitas vezes passa despercebido pelo espectador: está promovendo o tratamento não pela diminuição da criminalidade, mas pela redução da população carcerária. O objetivo? Abrir espaço para presos políticos. Fica evidente, aí, o espírito totalitarista do Governo em questão – o que é fortalecido quando, no fim do longa, Fredrich diz para Alex que o Sr. Alexander, representante da oposição, está preso, “para a própria proteção e a sua”.

O Sr. Alexander, a propósito, é outra personagem bastante interessante do ponto de vista político. Inicialmente, o escritor surge em cena frágil e vítima de violência, o que, novamente pelo fenômeno da identificação, atrai a simpatia do espectador. Mais à frente, quando o protagonista retorna à sua casa, revela-se que ele é envolvido com política e membro da oposição – e ele se mostra tão sem escrúpulos em relação a Alex quanto Fredrich. Antes de reconhecer seu agressor, o Sr. Alexander mostra-se cordial com ele e solidário em relação às consequências ruins do tratamento, como não conseguir mais ouvir determinado trecho de Beethoven. Logo em seguida, porém, revela em um telefonema que seu interesse é somente usá-lo como arma para o partido da situação não ser reeleito – e diz algo particularmente significativo sobre sua forma de enxergar a política: “A liberdade precisa ser defendida, ela é tudo. Pessoas comuns vendem sua liberdade por uma vida tranquila. Por isso, precisam ser lideradas, empurradas”.

                    

Após reconhecer Alex, porém, o Sr. Alexander não mais consegue tratá-lo com a cordialidade necessária para seus objetivos – embora tente. Ainda assim, com a ajuda de outros membros da oposição, droga o protagonista e o coloca em um aposento no andar superior ouvindo o quarto movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven- o que acaba por induzi-lo ao suicídio. O gesto, extremamente violento, é praticado justamente por alguém vitimado por uma violência também extrema, o que torna o escritor uma espécie de anti-reflexo de Alex – não à toa, ambos se chamam Alexander. É interessante observar também que o filme não mostra se os outros opositores sabiam que o jovem era quem havia agredido o escritor, o que, somado ao telefonema, sugere que aquele plano seria executado independente do reconhecimento e da vingança em que se transforma.

Há ainda outras metáforas políticas interessantes. Laranja Mecânica ironiza a figura do consultor pós-correicional através do bizarro Sr. Deltoïd (Morris). Além de inicialmente mostrar-se consciente de que Alex continuava cometendo atos de violência e preocupado somente em aquilo não ser descoberto, o consultor, quando o protagonista é pego, anuncia que ele é um assassino com um sarcasmo e descaso semelhante ao dos drugues – e chega a cuspir em seu rosto. Finalmente, a burocracia do Estado moderno é satirizada pela complexa rotina executada quando Alex é preso ou sai da cadeia – ele e o médico que vai buscá-lo têm de assinar diversos documentos.

                   

Stanley Kubrick

Se a abordagem de tantas discussões interessantes faz de Laranja Mecânica uma grande história, é a direção impecável de Stanley Kubrick e sua condução dos elementos técnicos que transformam esta trama em um dos maiores filmes da história do cinema.

Um dos pontos mais interessantes do trabalho de Kubrick é a lógica construída na maneira como Alex é enquadrado. Inicialmente, o diretor mantém a câmera levemente acima dos olhos do protagonista e este de cabeça baixa e olhar para cima, tornando sua figura ainda mais assustadora – enquanto isso, suas vítimas geralmente estão no chão e são filmadas de cima para baixo, mostrando fragilidade. Quando a personagem é presa, a câmera passa a enquadrá-la de frente. Já durante o Tratamento Ludovico, com Alex em processo de transformação, a câmera volta a estar levemente acima dos seus olhos – mas eles estão escancarados, o que tira o aspecto ameaçador. Depois, quando se torna vítima da violência que antes praticava, é ele quem passa a estar constantemente no chão e sendo visto de cima. Além disto, constantemente as personagens são fotografadas simetricamente, criando elegantes quadros.

Não é somente no enquadramento que Kubrick cria uma interessante lógica visual envolvendo os diferentes momentos da trajetória do protagonista. Na primeira cena violenta do longa, quando os drugues vão agredir um mendigo, o grupo é visto primeiro através de suas enormes e ameaçadoras sombras. Quando as duas personagens se reencontram e Alex é levado para o meio de outros moradores de rua, novamente surgem as sombras. Da mesma forma, se Alex antes atacou os parceiros Dim e Georgie (Marcus) os derrubando na água, posteriormente é afogado quando o caminho dos três volta a se cruzar. É interessante, também, a repetição do travelling utilizado nos dois momentos em que o Sr. Alexander surge em cena – e a surpresa decorrente de, no segundo, ele estar em cadeira de rodas e acompanhado não mais da esposa, mas de um jovem rapaz.

                    

O diretor também executa um trabalho de mise-in-scène notável. A movimentação dos atores na sequência de agressão ao Sr. Alexander ou no momento em que Alex agride os amigos e os joga na água (beneficiado pela câmera lenta), por exemplo, é admirável e contribui para que as cenas sejam, até hoje, marcos na história do cinema. Isto sem falar na brilhante cena onde o protagonista faz sexo com duas moças (a única vez em que isso ocorre voluntariamente), mostrado através de diversos e ágeis flashs em ritmo acelerado. Além disto, o elenco de Laranja Mecânica é uniformemente impecável e contribui definitivamente para o sucesso do longa.

                    

A trilha sonora de Laranja Mecânica é um espetáculo à parte. Belíssima, grandiosa e quase toda integrada por música clássica, traz um contraste fascinante entre a delicadeza de seus movimentos e a repugnância do que está sendo visto. O contraste mais marcante entre música e violência, porém, não se dá com o clássico, mas com Alex cantando Singin’in the Rain enquanto agride o casal Alexander – uma das cenas mais marcantes da história do cinema. É Singin’in the Rain, a propósito, que surge durante os créditos – uma fina ironia de Kubrick prevendo a volta da ultraviolência praticada por seu protagonista.

O filme é impecável também nos figurinos. É claro que as debochadas roupas vestidas por Alex e seus drugues são inquestionavelmente marcantes – não à toa, inspiram festas à fantasia até hoje. Mais interessante, porém, é observar a lógica impressa nas cores com que o protagonista se veste. Alex começa o longa usando branco. Passa a usar roupas escuras quando preso. Ao longo do tratamento, quando acredita estar ganhando a liberdade, volta a usar branco. Depois, ao ver que está, de certa forma, preso no próprio corpo, voltam os tons escuros. Ao fim, após a cirurgia, novamente o branco – das ataduras e faixas que o vestem no hospital.

A direção de arte, por sua vez, cria cenários muito impactantes. A leiteria Jorova, com suas paredes escuras e estátuas de mulheres nuas, é marcante. Também chamam a atenção as casas iluminadas e modernas das vítimas Alexander e a “mulher-gato” (Karlin) – esta última, em particular, faz-se notar pelo excesso de objetos relacionados a sexo – algo que provoca, é claro, o deboche de Alex. O apartamento futurista e colorido do protagonista marca pelo contraste com os tons pretos e brancos que permeavam o filme até então. Seu quarto é um reflexo de sua personalidade: um quadro de Beethoven, outro com uma mulher nua e uma estátua provocadora de Cristo – composição parecida com a cela onde fica na cadeia, trocando apenas a estátua por um crucifixo, já que está auxiliando o padre.

                   

Portanto, se as discussões que traz já fazem de Laranja Mecânica um longa genial, é graças à brilhante combinação dos elementos técnicos, orquestrados por um mestre, que o filme é um grande marco na história do cinema.

As Cores do Mundo Real

“É engraçado como as cores do mundo real só parecem realmente reais quando você as videia numa tela”. A constatação de Alex ao iniciar o Tratamento Ludovico evidencia o fascínio que a Sétima Arte é capaz de exercer e homenageia o próprio filme que a enuncia.

O debate sobre o que determina psicologicamente o indivíduo, seu consciente ou a manifestação deste consciente, sua mente ou seu comportamento, existe no “mundo real”. Da mesma forma, os questionamentos sobre os limites da interferência estatal sobre a individualidade são presentes no cotidiano e permeiam discussões sobre, por exemplo, a validade das penas restritivas de liberdade ou de morte. Também a função da pena é assunto recorrente e socialmente relevante. Finalmente, o fato de a política ser comumente regida mais por interesses que por princípios é um problema que afeta diretamente cada cidadão.

É verdadeiramente incrível, então, que o “mundo real”, quando projetado em uma tela branca, torne-se tão mais fascinante que no cotidiano. Grandes diretores, graças ao brilhantismo com que usam os inúmeros recursos possíveis do audiovisual, conseguem refletir o universo do espectador de forma mais profunda e intensa que a própria realidade. Kubrick, sem dúvidas, foi um dos grandes – para muitos, o maior.

Dada a densidade da obra que adaptou, portanto, o resultado não poderia ser diferente: Laranja Mecânica é mais que um filme – é um impactante estudo do indivíduo e da sociedade. Um trabalho grandioso e destinado a exercer influência sobre a arte e fascínio nos espectadores durante muito tempo.

Cotação: ******

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