Jogos Vorazes – 2012, EUA. Direção: Gary Ross. Elenco principal: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Donald Sutherland, Lenny Kravitz, Liam Hemsworth, Wes Bentley. Duração: 144 minutos.
Sinopse: Em um futuro próximo, 12 distritos são obrigados a pagar tributos à Capital através de jogos realizados periodicamente nos quais 24 jovens duelam até a morte. Os jogos são transmitidos pela televisão. Katniss voluntariamente se oferece para duelar no lugar de sua irmã, Primrose.
Pessoas selecionadas de forma aleatória para um reality show expõem suas virtudes e fraquezas para um grande público. O tratamento conferido pelo programa e pelo espectador a esses indivíduos é paradoxal. Por um lado, tornam-se ídolos e são vistos como heróis. Por outro, é tolerado que sofram publicamente maus tratos, riscos e humilhações, afinal, “faz parte do jogo”. Aos olhos do público, é como se fossem, ao mesmo tempo, melhores e piores que os indivíduos comuns (quando, na verdade, são efetivamente sujeitos absolutamente normais).
Qualquer semelhança entre a trama de Jogos Vorazes e a realidade não é mera coincidência: o longa potencializa e projeta para o futuro, de forma convincente, os absurdos praticados pela mídia criadora de celebridades e suas consequências perante o público. Por isso, consegue ser eficiente – apesar de diversas falhas no seu desenvolvimento.
Jogos Vorazes se passa no futuro – o que é indicado pela tecnologia existente à época, como trens que correm a 320 km/h ou pomadas extremamente eficientes. Periodicamente, um homem e uma mulher – ambos adolescentes – de cada um dos distritos existentes (doze, ao todo) em um país chamado Panem (não por coincidência, nome que remete a Panem et Circenses) são sorteados para participar dos jogos, um reality show onde são deixados em uma floresta, chamada no longa de Arena, com algumas armas e duelarão até que apenas um sobreviva. Estes participantes passam a ser chamados de Tributos. No distrito 12, a jovem Primrose Everdeen (Willow Shields) é sorteada – mas sua irmã, Katniss (Lawrence), pede para ir voluntariamente em seu lugar. É acompanhada por Peeta Mellark (Hutcherson). Ambos passam a simular um romance, a princípio como estratégia de jogo – já que precisam agradar o público para conseguir patrocinadores e obter diversos itens ao longo dos duelos.
A analogia trazida pela trama é bem construída: a falta de respeito da mídia em relação aos indivíduos na ânsia de atrair audiência, especialmente no que se refere a reality shows, pode levar a extremos inimagináveis. Tudo é muito bem retratado: o apresentador sorridente (Caesar Flickerman – Tucci, brilhante) transformando seus ratos de laboratório em heróis, o organizador calculista e manipulador, as diversas reações possíveis dos participantes expostos à experiência (a destacar aqueles que se tornam cruéis, lembrando em muito a discussão elaborada por Saramago em Ensaio Sobre a Cegueira) e o público manipulado e insensível – responsável por todo o circo, pois, como diz Gale (Hemsworth), “se não assistissem, não haveria jogos”. Óbvio, mas verdadeiro.
Alguns podem reclamar que há um exagero na mensagem passada pelo filme, já que não há um programa de televisão no qual as pessoas realmente duelam até a morte. É preciso entender, contudo, que o longa é uma analogia, não um espelho literal da sociedade contemporânea – e, como analogia, funciona perfeitamente. Em alguns reality shows modernos, os participantes podem não morrer, mas correm o risco – ou ficar dias exposto ao sol realizando atividades físicas extremas e comendo insetos não é perigoso? Além disso, se – ao que me conste – nunca houve mortes nestes programas, o mesmo não se pode dizer sobre humilhação, danos à saúde, degradação psicológica e afins. Mais: a crítica feita por Jogos Vorazes não precisa limitar-se a reality shows, pois se aplica a toda a indústria do entretenimento. Não foi, por exemplo, a sede do público por invasão da intimidade alheia que levou os paparazzis a perseguir Diana no dia da sua morte?
Gary Ross conduz bem a história e tem o mérito de refletir o público dos Jogos Vorazes – o duelo – no público de Jogos Vorazes – o filme. Contando com um ótimo trabalho de montagem e fotografia, o diretor imprime à trama ritmo e emoção suficientes para fazer com que o espectador fique interessado não só pelo destino dos protagonistas, mas também pelo futuro do jogo, pelo duelo sangrento e injusto que ocorre na tela – expondo, de forma quase metalinguística, a natureza humana que torna possível eventos como aquele. Vale destacar também a coragem de Ross em, apesar de o longa ser voltado ao público jovem, trazer toda a violência (física e psicológica) necessária ao seu desenvolvimento – e mesmo os “mocinhos” da história são capazes de ferir, matar ou enganar.
A atuação de Jennifer Lawrence é um espetáculo à parte – e se o espectador se preocupa com o destino da protagonista, é muito graças ao seu trabalho. Esta jovem atriz, que surgiu para o mundo em uma interpretação profunda e comovente em Inverno da Alma (indicada ao Oscar) e ganhou popularidade com a sensível composição da ambígua e emocionalmente frágil Raven em X-Men: Primeira Classe, aqui consolida-se como um dos grandes nomes de sua geração. Lawrence transforma Katniss em uma jovem multifacetada, com nuances de personalidade muito curiosas. É interessante notar, por exemplo, como a personagem treme antes de iniciar os Jogos, traindo toda a auto-confiança e determinação que tenta transparecer. Ou a maneira como ela parece cada vez menos desconfortável com as mortes que ocorrem no evento. Além disso, a forma como a atriz e Josh Hutcherson (não tão brilhante quanto ela, mas também eficiente) desenvolvem um romance entre seus personagens funciona muito bem ao não transparecer o quanto de sinceridade existe na relação, ligando novamente o espectador do filme ao espectador dos Jogos na ficção.
Chama a atenção, também, o contraste entre o tom triste dos distritos e da Arena, sempre retratados com cores como marrom e cinza, e o universo colorido e grandioso das capitais, em um excelente trabalho de direção de arte (o espaço onde os Tributos são apresentados, particularmente, enche os olhos), fotografia e figurino. Mesmo os exageros nas composições dos personagens revelam-se uma bela analogia, de acordo com a proposta da trama – a figura bizarra de Effie Trinket (Banks), por exemplo, remete a Lady Gaga, célebre produto da indústria de celebridades criticada. É pena que a trilha sonora não acompanhe a força técnica da produção, revelando-se burocrática na maior parte do tempo – aliás, sua ausência fortalece bastante a trama, em cenas silenciosas como quando Katniss se oferece no lugar da irmã ou quando os Jogos estão prestes a começar.
O maior problema de Jogos Vorazes, contudo, está no desenvolvimento do seu roteiro – que, se não chega a ser ruim, evidencia falhas que não fazem jus à analogia que representa. Assim como em Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, alguns problemas parecem decorrentes da adaptação (o que não os ameniza em nada, já que o filme tem de sustentar-se por contra própria). As tramas envolvendo o passado de Katniss, como a morte do seu pai – e a citação da protagonista à atitude da mãe na ocasião – ou o momento em que um personagem lhe atira um pedaço de pão, por exemplo, não são suficientemente desenvolvidas ou explicadas – soam arbitrárias, “arremessadas” no filme apenas para introduzir algo para as possíveis continuações. O mesmo ocorre com o frágil Gale, personagem que, por mais que seja procurado pela câmera e lembrado ao longo do filme, acaba sendo absolutamente desinteressante e inútil – e a composição inexpressiva de Liam Hemsworth, que parece oriundo da escola Robert Pattinson de atuação, em nada o ajuda.
Se estes aspectos atrapalham a trama, mais graves são os defeitos centrais do roteiro – aqueles que ferem a lógica da história. Os Jogos estão na sua 74ª edição, o que faz com que a forma amadora com que seus organizadores lidam com algumas situações imprevistas soe absolutamente inverossímil. É possível aceitar as mudanças das regras ao longo dos Jogos, algo que realmente faz parte do universo de muitos reality shows e condiz com a manipulação proposta pela história. Não faz sentido, porém, que a ideia de Katniss no fim da trama, de uma obviedade sem tamanho, nunca tenha ocorrido nas edições anteriores ou sido prevista pelos idealizadores. A presença de uma fruta com uma característica peculiar na Arena também não se justifica, já que cria para os Tributos possibilidades que em nada beneficiam os realizadores dos Jogos.
Além disso, é pena que, aqui e ali, para criar tensão, Ross se entregue a alguns artifícios desnecessários e pouco naturais. A introdução em texto explicando a história, por exemplo, é absolutamente descartável, já que a mesma explicação é vista em um vídeo no Dia da Colheita (momento em que os Tributos são selecionados). Neste dia, a propósito, há um outro momento inverossímil: aquele onde todos os jovens marcham para ver o sorteio e, entre centenas de pessoas, somente Primrose fica parada e amedrontada – algo que deveria ocorrer com vários indivíduos naquela situação. Outro elemento usado inadequadamente para criar tensão é o diálogo de dois Tributos anunciando estarem usando Peeta somente para encontrar Katniss e planejando matá-lo depois – diálogo que funcionaria bem se não fosse inexplicavelmente esquecido pelos personagens quando o grupo encontra a garota.
É uma pena que isso ocorra em um longa no qual o diretor mostra, em outros momentos, ser capaz de criar cenas fortes e marcantes de maneira natural. Uma sequência que envolve um galho sendo cortado, por exemplo, é tensa e marcante justamente pela simplicidade e calma com que é desenvolvida, prescindindo de recursos artificiais. Da mesma forma, a rebelião do Distrito 11 é arrepiante pela forma como é conduzida e por evidenciar posteriormente como é tardia e ineficaz, não pela complexidade de sua ideia – que era previsível. O mesmo ocorre nas cenas onde os elementos técnicos refletem o estado de espírito da protagonista – atordoada com os aplausos do público e não ouvindo o apresentador, ou desnorteada após a já citada sequência do galho cortado.
Jogos Vorazes, portanto, tem ótimos momentos e funciona bem ao desenvolver sua criativa premissa e criar analogias entre a ficção e a realidade, além de apresentar, no geral, um bom trabalho técnico. É pena que seus roteiristas, capazes de retratar um universo rico e complexo, acabem deixando-se boicotar por detalhes banais facilmente evitáveis. Exatamente o mesmo erro dos organizadores dos jogos. Ironicamente, a última das analogias (esta acidental) entre os duelos e o longa que os retrata.
Cotação: ***

