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Posts de março \25\UTC 2012

Jogos Vorazes

Jogos Vorazes – 2012, EUA. Direção: Gary Ross. Elenco principal: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Donald Sutherland, Lenny Kravitz, Liam Hemsworth, Wes Bentley. Duração: 144 minutos.

Sinopse: Em um futuro próximo, 12 distritos são obrigados a pagar tributos à Capital através de jogos realizados periodicamente nos quais 24 jovens duelam até a morte. Os jogos são transmitidos pela televisão. Katniss voluntariamente se oferece para duelar no lugar de sua irmã, Primrose.

Pessoas selecionadas de forma aleatória para um reality show expõem suas virtudes e fraquezas para um grande público. O tratamento conferido pelo programa e pelo espectador a esses indivíduos é paradoxal. Por um lado, tornam-se ídolos e são vistos como heróis. Por outro, é tolerado que sofram publicamente maus tratos, riscos e humilhações, afinal, “faz parte do jogo”. Aos olhos do público, é como se fossem, ao mesmo tempo, melhores e piores que os indivíduos comuns (quando, na verdade, são efetivamente sujeitos absolutamente normais).

Qualquer semelhança entre a trama de Jogos Vorazes e a realidade não é mera coincidência: o longa potencializa e projeta para o futuro, de forma convincente, os absurdos praticados pela mídia criadora de celebridades e suas consequências perante o público. Por isso, consegue ser eficiente – apesar de diversas falhas no seu desenvolvimento.

Jogos Vorazes se passa no futuro – o que é indicado pela tecnologia existente à época, como trens que correm a 320 km/h ou pomadas extremamente eficientes. Periodicamente, um homem e uma mulher – ambos adolescentes – de cada um dos distritos existentes (doze, ao todo) em um país chamado Panem (não por coincidência, nome que remete a Panem et Circenses) são sorteados para participar dos jogos, um reality show onde são deixados em uma floresta, chamada no longa de Arena, com algumas armas e duelarão até que apenas um sobreviva. Estes participantes passam a ser chamados de Tributos. No distrito 12, a jovem Primrose Everdeen (Willow Shields) é sorteada – mas sua irmã, Katniss (Lawrence), pede para ir voluntariamente em seu lugar. É acompanhada por Peeta Mellark (Hutcherson). Ambos passam a simular um romance, a princípio como estratégia de jogo – já que precisam agradar o público para conseguir patrocinadores e obter diversos itens ao longo dos duelos.

A analogia trazida pela trama é bem construída: a falta de respeito da mídia em relação aos indivíduos na ânsia de atrair audiência, especialmente no que se refere a reality shows, pode levar a extremos inimagináveis. Tudo é muito bem retratado: o apresentador sorridente (Caesar Flickerman – Tucci, brilhante) transformando seus ratos de laboratório em heróis, o organizador calculista e manipulador, as diversas reações possíveis dos participantes expostos à experiência (a destacar aqueles que se tornam cruéis, lembrando em muito a discussão elaborada por Saramago em Ensaio Sobre a Cegueira) e o público manipulado e insensível – responsável por todo o circo, pois, como diz Gale (Hemsworth), “se não assistissem, não haveria jogos”. Óbvio, mas verdadeiro.

Alguns podem reclamar que há um exagero na mensagem passada pelo filme, já que não há um programa de televisão no qual as pessoas realmente duelam até a morte. É preciso entender, contudo, que o longa é uma analogia, não um espelho literal da sociedade contemporânea – e, como analogia, funciona perfeitamente. Em alguns reality shows modernos, os participantes podem não morrer, mas correm o risco – ou ficar dias exposto ao sol realizando atividades físicas extremas e comendo insetos não é perigoso? Além disso, se – ao que me conste – nunca houve mortes nestes programas, o mesmo não se pode dizer sobre humilhação, danos à saúde, degradação psicológica e afins. Mais: a crítica feita por Jogos Vorazes não precisa limitar-se a reality shows, pois se aplica a toda a indústria do entretenimento. Não foi, por exemplo, a sede do público por invasão da intimidade alheia que levou os paparazzis a perseguir Diana no dia da sua morte?

Gary Ross conduz bem a história e tem o mérito de refletir o público dos Jogos Vorazes – o duelo – no público de Jogos Vorazes – o filme. Contando com um ótimo trabalho de montagem e fotografia, o diretor imprime à trama ritmo e emoção suficientes para fazer com que o espectador fique interessado não só pelo destino dos protagonistas, mas também pelo futuro do jogo, pelo duelo sangrento e injusto que ocorre na tela – expondo, de forma quase metalinguística, a natureza humana que torna possível eventos como aquele. Vale destacar também a coragem de Ross em, apesar de o longa ser voltado ao público jovem, trazer toda a violência (física e psicológica) necessária ao seu desenvolvimento – e mesmo os “mocinhos” da história são capazes de ferir, matar ou enganar.

A atuação de Jennifer Lawrence é um espetáculo à parte – e se o espectador se preocupa com o destino da protagonista, é muito graças ao seu trabalho. Esta jovem atriz, que surgiu para o mundo em uma interpretação profunda e comovente em Inverno da Alma (indicada ao Oscar) e ganhou popularidade com a sensível composição da ambígua e emocionalmente frágil Raven em X-Men: Primeira Classe, aqui consolida-se como um dos grandes nomes de sua geração. Lawrence transforma Katniss em uma jovem multifacetada, com nuances de personalidade muito curiosas. É interessante notar, por exemplo, como a personagem treme antes de iniciar os Jogos, traindo toda a auto-confiança e determinação que tenta transparecer. Ou a maneira como ela parece cada vez menos desconfortável com as mortes que ocorrem no evento. Além disso, a forma como a atriz e Josh Hutcherson (não tão brilhante quanto ela, mas também eficiente) desenvolvem um romance entre seus personagens funciona muito bem ao não transparecer o quanto de sinceridade existe na relação, ligando novamente o espectador do filme ao espectador dos Jogos na ficção.

Chama a atenção, também, o contraste entre o tom triste dos distritos e da Arena, sempre retratados com cores como marrom e cinza, e o universo colorido e grandioso das capitais, em um excelente trabalho de direção de arte (o espaço onde os Tributos são apresentados, particularmente, enche os olhos), fotografia e figurino. Mesmo os exageros nas composições dos personagens revelam-se uma bela analogia, de acordo com a proposta da trama – a figura bizarra de Effie Trinket (Banks), por exemplo, remete a Lady Gaga, célebre produto da indústria de celebridades criticada.  É pena que a trilha sonora não acompanhe a força técnica da produção, revelando-se burocrática na maior parte do tempo – aliás, sua ausência fortalece bastante a trama, em cenas silenciosas como quando Katniss se oferece no lugar da irmã ou quando os Jogos estão prestes a começar.

O maior problema de Jogos Vorazes, contudo, está no desenvolvimento do seu roteiro – que, se não chega a ser ruim, evidencia falhas que não fazem jus à analogia que representa. Assim como em Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres, alguns problemas parecem decorrentes da adaptação (o que não os ameniza em nada, já que o filme tem de sustentar-se por contra própria).  As tramas envolvendo o passado de Katniss, como a morte do seu pai – e a citação da protagonista à atitude da mãe na ocasião – ou o momento em que um personagem lhe atira um pedaço de pão, por exemplo, não são suficientemente desenvolvidas ou explicadas – soam arbitrárias, “arremessadas” no filme apenas para introduzir algo para as possíveis continuações. O mesmo ocorre com o frágil Gale, personagem que, por mais que seja procurado pela câmera e lembrado ao longo do filme, acaba sendo absolutamente desinteressante e inútil – e a composição inexpressiva de Liam Hemsworth, que parece oriundo da escola Robert Pattinson de atuação, em nada o ajuda.

Se estes aspectos atrapalham a trama, mais graves são os defeitos centrais do roteiro – aqueles que ferem a lógica da história. Os Jogos estão na sua 74ª edição, o que faz com que a forma amadora com que seus organizadores lidam com algumas situações imprevistas soe absolutamente inverossímil. É possível aceitar as mudanças das regras ao longo dos Jogos, algo que realmente faz parte do universo de muitos reality shows e condiz com a manipulação proposta pela história. Não faz sentido, porém, que a ideia de Katniss no fim da trama, de uma obviedade sem tamanho, nunca tenha ocorrido nas edições anteriores ou sido prevista pelos idealizadores. A presença de uma fruta com uma característica peculiar na Arena também não se justifica, já que cria para os Tributos possibilidades que em nada beneficiam os realizadores dos Jogos.

Além disso, é pena que, aqui e ali, para criar tensão, Ross se entregue a alguns artifícios desnecessários e pouco naturais. A introdução em texto explicando a história, por exemplo, é absolutamente descartável, já que a mesma explicação é vista em um vídeo no Dia da Colheita (momento em que os Tributos são selecionados). Neste dia, a propósito, há um outro momento inverossímil: aquele onde todos os jovens marcham para ver o sorteio e, entre centenas de pessoas, somente Primrose fica parada e amedrontada – algo que deveria ocorrer com vários indivíduos naquela situação. Outro elemento usado inadequadamente para criar tensão é o diálogo de dois Tributos anunciando estarem usando Peeta somente para encontrar Katniss e planejando matá-lo depois – diálogo que funcionaria bem se não fosse inexplicavelmente esquecido pelos personagens quando o grupo encontra a garota.

É uma pena que isso ocorra em um longa no qual o diretor mostra, em outros momentos, ser capaz de criar cenas fortes e marcantes de maneira natural. Uma sequência que envolve um galho sendo cortado, por exemplo, é tensa e marcante justamente pela simplicidade e calma com que é desenvolvida, prescindindo de recursos artificiais. Da mesma forma, a rebelião do Distrito 11 é arrepiante pela forma como é conduzida e por evidenciar posteriormente como é tardia e ineficaz, não pela complexidade de sua ideia – que era previsível. O mesmo ocorre nas cenas onde os elementos técnicos refletem o estado de espírito da protagonista – atordoada com os aplausos do público e não ouvindo o apresentador, ou desnorteada após a já citada sequência do galho cortado.

Jogos Vorazes, portanto, tem ótimos momentos e funciona bem ao desenvolver sua criativa premissa e criar analogias entre a ficção e a realidade, além de apresentar, no geral, um bom trabalho técnico. É pena que seus roteiristas, capazes de retratar um universo rico e complexo, acabem deixando-se boicotar por detalhes banais facilmente evitáveis. Exatamente o mesmo erro dos organizadores dos jogos. Ironicamente, a última das analogias (esta acidental) entre os duelos e o longa que os retrata.

Cotação: ***

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Drive

Drive – 2011, EUA. Direção: Nicolas Winding Refn. Elenco principal: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Ron Perlman, Christina Hendricks, Kaden Leos, Oscar Isaac, James Biberi. Duração: 100 minutos.

Sinopse: Um dublê e motorista de criminosos parece encontrar algum sentido em sua vida após conhecer sua vizinha, Irene.

Em certo momento de Drive, o protagonista (Ryan Gosling) dialoga com o garoto Benicio (Kaden Leos):

- Este é o vilão?

- Sim.

- Como sabe?

- É um tubarão.

- Não existem tubarões bons?

- Olhe para ele, ele parece bonzinho?

A segunda pergunta do protagonista deixa claro que as atitudes da personagem não eram suficientes para provar sua vilania. A lógica de Benicio, contudo, prescinde de provas e é bastante objetiva: além de o tubarão ser mau por natureza, a aparência daquele não inspira bondade. Só pode, portanto, ser o vilão.

Este diálogo, aparentemente banal, resume o principal questionamento do filme: é possível fugir da própria natureza?

O interlocutor de Benicio e protagonista do longa vive como uma sombra, sem passado, ambição ou nome – é creditado apenas como Driver (“Motorista”). Trabalha como auxiliar do mecânico Shannon (o ótimo Bryan Cranston, da brilhante série Breaking Bad) em uma oficina onde apareceu subitamente e aceitou receber metade do salário normal. Também é dublê na indústria cinematográfica. Além disso, auxilia criminosos, dirigindo em assaltos. Em todas estas tarefas, é frio e preciso como o cronômetro que usa nos crimes, o escorpião bordado em sua jaqueta ou o Impala turbinado com que pratica as fugas. Sua rotina é abalada, porém, ao conhecer Irene (Carey Mulligan) – cujo marido, Standart (Oscar Issac), está preso – e seu filho Benicio. Driver passa, então, a nutrir sentimentos de carinho e proteção que questionam sua natureza sombria.

A direção de Nicolas Refn inegavelmente tem um estilo muito marcante (o clima “anos 80” do longa é contagiante). Mais importante, contudo, é que a condução do diretor faz com que o estado de espírito de Driver, embora raramente explicitado em palavras, seja sempre latente. É comum alguns espectadores comentarem, erroneamente, que só se importam com a história e não com os elementos técnicos dos filmes a que assistem – sem perceberem o quanto os elementos técnicos servem à trama que julgam fluir por conta própria. Drive vai além: os recursos audiovisuais não apenas auxiliam a história – eles são a história. Refn não se limita a usar a técnica para manipular a emoção do espectador, mas o faz também para mostrar o que se passa em vez de falar – o que, além de muito rico em termos de linguagem cinematográfica, traduz a característica do próprio protagonista.

Cabe notar, por exemplo, a forma como a fotografia, além de belíssima, reflete as transformações da natureza do personagem. Inicialmente escuras, as imagens se tornam mais claras quando Driver conhece Irene e passa a flertar com a ideia de ter uma vida “real” – e chegam a sua maior luminosidade em outras cenas com a vizinha, como quando o protagonista a leva para passear de carro (onde Driver ri, o que é raro) ou em um momento no elevador. Com isso, Refn dá uma elegante leitura ao clichê romântico “mulher ilumina a vida de homem sombrio”, um clichê que, conduzido de outra forma, poderia ter um resultado bastante piegas – adjetivo que não se aplica de forma alguma a Drive.

Não somente a luminosidade da imagem é usada como reflexo das personagens, mas também a direção de arte. Enquanto a casa de Driver é escura e minimalista, a de Irene é decorada e pintada com diversas cores e papeis de parede – o que também simboliza, evidentemente, a dicotomia entre luz e sombra que permeia tanto o protagonista quando o casal e o próprio filme. Além disso, Driver parece ter somente os objetos necessários para a manutenção de sua rotina – mesmo os objetos banais a primeira vista, como a televisão transmitindo o jogo de basquete vista no início, revelam-se parte de seus planos em seguida. Irene, no entanto, tem diversas fotos da família (o que ressalta seu bom relacionamento com Standart, personagem que foge da caricatura agressiva que, a princípio, poderia se imaginar), abajures, luminárias (luz, novamente), espelhos e copos decorados, revelando-se muito mais humana que seu vizinho.

Da mesma maneira, a montagem e a forma como Refn filma, além de merecerem óbvios elogios nas extraordinárias sequências de veículos em alta velocidade, relacionam-se com a natureza paciente, elegante e cirúrgica, mas violenta, do protagonista. O espectador observa calmamente o apartamento de Driver, o vê trocar longos olhares silenciosos com Irene, aguarda a porta do elevador se fechar e assiste a elegantes transições em que a imagem de um plano calmamente some para dar espaço à cena posterior. Apesar disso, o filme em nenhum momento deixa de soar absolutamente tenso – afinal, é protagonizado por um homem que também esconde características explosivas por trás da tranquilidade aparente. Esta relação fica especialmente clara na brilhante cena do hotel, onde tanto Driver quanto a câmera revelam uma natureza violenta sem perderem o controle da situação. O ponto é que, em Drive, calma está longe de ser sinônimo de paz. Justamente por isso, o longa jamais ameniza nas fortes cenas de violência – elas são mostradas até com certa banalidade, sem grandes efeitos ou trilha sonora chamativa, como se não tivessem o  impacto que tem.

A trilha sonora – belíssima – prefere chamar a atenção para os momentos onde Driver busca afastar-se de sua natureza sombria – e as letras das canções descrevem esta busca. Quando conhece Irene, a música lhe diz: “Há algo dentro de você / É difícil explicar / Eles estão falando sobre você / Mas você ainda é o mesmo”. Já quando o anti-herói passeia com a vizinha pela primeira vez, a trilha pede: “Seja um ser humano e um herói real”. Finalmente, é impossível não citar a possivelmente mais bela cena do filme: aquela em que, mascarado (assim, parece mais à vontade), Driver calmamente observa Nino (Ron Perlman) pela porta enquanto o espectador ouve a incrível voz de Riz Ortolani cantar que “Esta luz não é para esses homens, ainda perdidos em uma velha e escura sombra” e “Isso tudo pode começar de novo, como as estrelas devem desaparecer para gerar um dia novo e brilhante” – música que, após determinado evento, imediatamente se cala.

Nos momentos violentos, o silêncio chega a ser ensurdecedor – mesmo o cronômetro do protagonista é silenciado. Não há elementos para amenizar o impacto das cenas, o que evidencia a verdadeira personalidade de Driver. O plano mais impactante neste sentido talvez seja o que se passa no elevador – uma sequência tecnicamente e emocionalmente espetacular, costurada com um cuidado absoluto, que se inicia com um gesto absolutamente contraditório com o que ocorre em seguida: a revelação da natureza violenta (maximizada ao ser filmada de baixo pra cima) que o pragmatismo de Driver esconde – e que sempre o leva a isolar-se no seu próprio universo, ali representado pelo elevador.

A atuação do elenco está à altura da complexidade do filme – especialmente no que se refere a Ryan Gosling. O ator entende a natureza do personagem e o compõe de forma contida e minimalista, com movimentos calmos e determinados, mas com sutilezas capazes de revelar nuances de sua personalidade – principalmente através das mãos e dos olhos. Sua calma aparente geralmente é traída pelas mãos – o ator desenvolve uma técnica de apertá-las sempre que o protagonista está tenso com algo, como quando vê um carro estacionando inesperadamente próximo ao seu ou quando ouve uma voz conhecida no telefone (após uma brilhante sequência com um martelo). Já seus olhos parecem antecipar não apenas seus movimentos, mas os de todos que o cercam (algo que ganha destaque na sequência final) – e Gosling convence o espectador dessa característica do personagem. O olhar, porém, também o trai em um raro momento onde Driver revela-se emocionalmente inseguro em uma conversa com Irene – e olha para o chão, tenso, o que contrasta sua firmeza habitual.

Não é apenas na atuação de Gosling que Drive revela aspectos importantes da trama com sutileza. Alguns pontos chamam a atenção, como o fato de a falta de ambição financeira de Driver (evidenciada em uma decisão importante do final da trama) ter sido antecipada por Shannon quando este revela o valor de seu salário, ou o fato de a câmera focar uma mala de dinheiro momentos antes de algo inesperado ser revelado sobre ela. O mesmo ocorre quando a trama traça paralelos entre a sequência inicial do longa e uma ação posterior bastante similar, surpreendendo o espectador com as diferenças nas consequências. São detalhes que mostram cuidado no tratamento do roteiro.

Um roteiro que caminha firmemente para uma sequência final épica. A metáfora do escorpião com a rã (uma bela rima com o diálogo sobre o tubarão), a forma como Driver antevê os acontecimentos, as cenas filmadas através de sombras, a forma como o sol tangencia o protagonista em determinado momento chave, o trabalho de fotografia e sua relação com a luz e a sombra a partir daí e a música na reta final: o terceiro ato resume todos os méritos de Drive e amarra com elegância e firmeza a trajetória do anti-herói e as consequências dos seus questionamentos acerca da própria natureza.

Questionamentos que ganham força e acompanham o público mesmo após a sessão, pois não são somente do protagonista, mas também do espectador – e não somente no que se refere a Drive, mas a inúmeros momentos da vida de qualquer um: este é o vilão? Como sabe? Não existem tubarões bons?

Cotação: *****

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