
Palhaço, O – 2011, Brasil. Direção: Selton Mello. Elenco principal: Selton Mello, Paulo José, Larissa Manoela, Giselle Motta. Duração: 90 minutos.
Sinopse: Ao lado do pai Valdemar e outros colegas, o palhaço Benjamim roda a estrada com o Circo Esperança. Mas o artista começa a questionar a própria identidade e a acreditar que está perdendo a graça.
Selton Mello é um homem inquieto. Carismático e querido pelo público desde a infância, teria um caminho fácil como ator de novelas e astro global – no entanto, parece sempre insatisfeito. Desde 1999 não atua em novelas – nos últimos anos, exerceu inúmeras atividades artísticas, chegando à direção de longas em 2009, com o ótimo Feliz Natal. Agora, no encantador O Palhaço, Selton escreve (repetindo a parceria com Marcelo Vindicatto no roteiro), dirige, monta (ao lado de Marília Moraes) e interpreta um protagonista buscando se encontrar – dando, portanto, um outro rosto às suas inquietações.
Benjamim faz parte da alegre trupe do Circo Esperança, que roda as estradas levando alegria a cidades simples. O personagem interpreta o palhaço Pangaré. Benjamim, porém, entra em conflito ao perceber que não é o palhaço Pangaré – ao contrário das pessoas que o cercam, que se confundem com seus personagens nos espetáculos, com exceção apenas do seu pai Valdemar, o palhaço Puro-Sangue (seu companheiro em cena e dono do circo), e de Lola, a “mulher corajosa”. Selton mostra isso com sutileza – por exemplo, no divertido plano fotografando o grupo na casa do prefeito, onde apenas o trio citado se veste de maneira sóbria.
O protagonista sabe que não é Pangaré, mas, criado no circo e acostumado apenas com aquele universo, não sabe quem é de fato. Isto é mais mostrado que explicado: quando termina o primeiro espetáculo mostrado no longa e ele sai do circo, por exemplo, o contraste entre a música alegre e as cores vivas de antes com o silêncio e a imensidão árida fotografada já deixa claro o vazio do estado de espírito do personagem. Benjamim inicia, então, uma busca por identidade – inconsciente, como toda busca dessa natureza. O protagonista acredita estar à procura apenas de um amor e um ventilador. Há ainda uma procura consciente por identidade, mas apenas no sentido de RG – outra ideia muito inteligente do roteiro.
Há várias outras sutilezas em O Palhaço. O espelho, já usado na apresentação do personagem para diferenciá-lo de Pangaré, voltará a aparecer, como em um reencontro, no auge da busca do protagonista. Destaca-se também o plano em que, ao deixar a trupe, Benjamim é filmado através de sua sombra – como se até seu reflexo deixasse de existir naquele momento. Na mesma sequência, merece ser citado o fato de Benjamim ser filmado de frente enquanto o circo se afasta – ao contrário de outra personagem instantes depois, filmada de costas na mesma situação, retratando com delicadeza a diferença dos dois “abandonos”.
Selton Mello mostra-se mais à vontade que em Feliz Natal, permitindo-se uma maior liberdade em termos técnicos, como ao criar gags através de jogos de câmeras e cenário (por exemplo, nas composições com os quadros na casa do prefeito). A câmera também brinca ao fotografar diversas vezes a trupe como em um retrato antigo, lembrando bastante Os Excêntricos Tenenbaums. Várias outras referências cinematográficas podem ser observadas, de Fellini, diretor marcado por, entre outras coisas, trazer o circo às telas, a Almodóvar, com seus personagens caricatos e cores fortes. O filme remete também a, por que não, os longas do grupo Os Trapalhões, que também retratavam em alguns filmes o lado humilde das pequenas cidades do Brasil de forma simples, verdadeira e alegre.
Há ainda um trabalho de som muito interessante. Usa muitos sons diegéticos (aqueles criados pelos elementos da cena), o que, aliado à ótima trilha sonora, deixa o longa com um tom mais circense. Também investe em muitas falas em off (antecipando cenas posteriores às que estão sendo mostradas), o que traz bastante dinamismo. Finalmente, a direção de arte de João Amaral Peixoto é sensacional: vários espaços do filme, como o circo (palco e bastidores), a casa do prefeito, o bar, a delegacia e o cartório, entre outros, remetem fortemente às cidades de interior do Brasil e são extremamente marcantes, dando o tom adequado às cenas e certamente acompanhando o espectador após a projeção.
Os méritos de Selton não se limitam ao roteiro, montagem e direção. Como ator, ele apresenta um de seus melhores trabalhos, fluindo com igual eficiência entre o drama e a comédia. Selton certamente comove o público com a verdade impressa na composição da angústia de seu personagem. Mas também faz rir, seja na pele de Pangaré, palhaço que interpreta como um profissional do ramo (e aí merecem destaque as aulas do palhaço Kuxixo, creditado como personal palhaçator), seja na de Benjamim – muitas vezes, apenas usando o tom de voz, como em uma cena em que, desiludido, diz “Jóia”. Também comove e diverte simultaneamente na bela sequência em um caminhão, no terceiro ato – o primeiro momento no filme em que Benjamim (e não Pangaré) tem intenção de fazer rir.
O resto do elenco também está excelente. Os membros do Circo Esperança interpretam seus papéis com muita eficiência. Há pontas de luxo, como as de Ferrugem, Jorge Loredo (o Zé Bonitinho) e Moacyr Franco, todos brilhantes em suas poucas cenas. A estreante Giselle Motta mostra-se uma atriz promissora, trazendo desde o início um tom misterioso para Lola. Larissa Manoela, por sua vez, rouba a cena com sua Guilhermina – personagem que exige da jovem atriz demonstrações de grande alegria, medo, preocupação, raiva e desconfiança, todas representadas com a mesma naturalidade. Finalmente, o gigante Paulo José atua com uma carga emocional grande o suficiente para fazer seu personagem merecer um filme próprio. Com poucas palavras, o ator deixa claro o amor de Valdemar pelo filho, mas a dificuldade de compreendê-lo graças ao cansaço e à simplicidade.
Ensina o filme que, assim como o rato come queijo e o gato bebe leite, algumas pessoas nascem para determinada função. Talvez Selton Mello ainda esteja buscando a sua, talvez já tenha se dado conta que são várias. Não importa. Esta resposta cabe apenas a ele. Ao cinema brasileiro, cabe somente agradecê-lo por, seja buscando ou encontrando a própria identidade, presentear o público com trabalhos tão brilhantes quanto O Palhaço.
Cotação: *****
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