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Posts de setembro \21\UTC 2011

Amor a Toda Prova

Amor a Toda Prova – 2011, EUA. Direção: Glen Ficarra, John Requa. Elenco principal: Steve Carell, Julianne Moore, Ryan Gosling, Emma Stone, Analeigh Tipton, Jonah Bobo, Marisa Tomei, Kevin Bacon. Duração: 118 minutos.

Sinopse: Cal, após traição e pedido de divórcio de Emily, decide tentar reconquistá-la com a ajuda de Jacob, um típico conquistador. Este, por sua vez, teve uma de suas poucas rejeições vindas de Hannah, que namora um advogado desinteressante.  Enquanto isso, o filho de Cal, Robbie, tenta lidar com a paixão por sua babá, Jessica.

A comédia romântica, comercialmente, costuma ser um território seguro para os produtores de cinema. São longas que contam com um público cativo – é comum mesmo exemplares medíocres conseguirem bons resultados de bilheteria. Surgem, então, muitos filmes pautados em receitas prontas e já repetidas dezenas de vezes – o que faz das produções do gênero que evitam esses erros surpresas muito agradáveis. É este o caso do leve e divertido Amor a Toda Prova.

As histórias do filme não são particularmente originais, como fica claro pela sinopse. Os méritos estão na forma de desenvolvê-las, principalmente ao considerar que há muitos personagens e núcleos paralelos e tons diferentes em cada um deles. É verdade que alguns coadjuvantes acabam deslocados, como ocorre com Mollie, filha do casal protagonista, Liz, amiga de Hannah, e mesmo o aborrecido David Lindhagen, um desperdício para um ator como Kevin Bacon. Isto, porém, é exceção – as personagens, em sua maior parte, são muito bem desenvolvidas. Cal e Jacob equilibram de maneira eficaz a comédia, na dinâmica entre eles, e o drama, nas relações com seus interesses românticos – Steve Carell, cada vez melhor, é brilhante na composição do protagonista e bem acompanhado por Ryan Gosling. Juliane Moore traz humanidade à apaixonada, porém frustrada, Emily. Já Hannah cresce muito ao longo do filme, sendo interpretada com charme e delicadeza pela promissora Emily Stone. Mas quem rouba a cena são os coadjuvantes Analeigh Tipton e Jonah Bobo – Jessica e Robbie trazem em seus planos e gestos uma divertida (e comovente) contradição entre ingenuidade e maturidade, típica da adolescência – e o desfecho dado a eles é genial. Finalmente, Marisa Tomei faz muito com pouco tempo, fazendo de Kate uma das figuras mais marcantes do longa.

Todas essas histórias e personagens são bem conduzidas e apresentadas ao espectador com muita eficiência, graças a um excelente trabalho de montagem. O filme transita com elegância entre as diversas tramas apresentadas – não há cortes bruscos. Além disso, há diversas situações passadas no mesmo momento, e o paralelismo é muito bem estabelecido. Finalmente, pode-se citar alguns raccords particularmente interessantes, como aquele onde Cal mostra-se um conquistador – útil para mostrar a facilidade adquirida pelo protagonista – ou quando a câmera flui verticalmente entre diversas personagens após um momento emblemático do longa. Diversos planos criados por Ficarra e Requa também chamam a atenção pelo cuidado com a composição visual. Pode-se citar, por exemplo, o momento onde a diferença de altura entre Jessica e Robbie é ressaltada pela câmera ou a cena onde Cal e Emily são separados por uma porta – uma imagem cujo simbolismo ganha força com a continuidade da cena.

Todo o longa é conduzido em um tom leve e agradável. Cabe observar como o roteiro usa referências do “mundo real” (Crepúsculo, GAP, Demi Moore, Karate Kid, Dirty Dancing) para tornar as personagens mais próximas do espectador, atraindo sua simpatia – e é louvável que, exceto quanto a Crepúsculo, as referências sejam bastante orgânicas. Com isso, o público acaba “engolindo” com mais naturalidade algumas coincidências típicas da comédia romântica, como a presença de Jacob no bar ou Cal no jardim (onde sua falta de cuidado em tentar não ser descoberto soa inverossímil) nos momentos mais convenientes possíveis. Se o roteiro soa artificial nessas situações, ao menos mostra saber rir de si mesmo quando investe em determinados clichês, como na reação de Cal quando começa a chuva ou na sinceridade de Hannah ao explicar a ação impetuosa tomada momentos antes.

Embora Amor a Toda Prova mantenha-se sempre agradável, alguns momentos são particularmente marcantes, como o diálogo de Cal tentando conquistar Kate ou a cena na casa de Jacob – além de divertida e comovente, traz uma rima elegante entre o seu início e o final, e revela muito das personagens envolvidas. Mas a grande cena do filme, sem dúvidas, é a memorável sequência no campo de mini-golfe – além de engraçadíssima, é onde o roteiro mais surpreende e amarra as pontas soltas. O maior mérito do texto de Dan Fogelman, a propósito, está nas reviravoltas criadas. Há várias surpresas entusiasmantes e todas são elaboradas com muito cuidado, tendo pistas espalhadas (mas não escancaradas) antes de suas revelações e mostrando-se absolutamente plausíveis e adequadas depois. Com isso, Fogelman, acostumado com roteiros de animações como Bolt – Supercão e Carros e jamais tendo trabalhado em uma produção do gênero, mostra-se uma surpresa agradável.

Fortalecido ainda por um final inteligente e bem conduzido, Amor a Toda Prova mostra que Hollywood ainda tem fôlego para produzir comédias românticas leves e despretensiosas sem abdicar da qualidade. Ao contrário de muitos filmes do gênero recentemente produzidos, o longa não espera agradar apenas quem seja capaz de “desligar o cérebro”. Uma prova de respeito ao espectador.

Cotação: ****

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Homem do Futuro, O


Homem do Futuro, O – 2011, Brasil. Direção: Cláudio Torres. Elenco principal: Wagner Moura, Alinne Moraes, Fernando Ceylão, Maria Luísa Mendonça, Gabriel Braga Nunes. Duração: 106 minutos.

Sinopse Oficial: Zero é um cientista brilhante e solitário que acredita ser infeliz porque 20 anos atrás foi humilhado pelo grande amor da sua vida. Ao tentar criar uma forma revolucionária de energia, volta acidentalmente ao passado e se vê diante da chance de encontrar a si mesmo (20 anos mais jovem) e “corrigir” os erros de sua própria vida. Tentar manipular os caminhos do tempo é mais difícil e confuso do que possa parecer.

Entre várias abordagens fascinantes que o gênero ficção científica pode oferecer ao cinema, a viagem no tempo, certamente, ocupa um lugar de destaque. No entanto, apesar do interesse imediato que gera, o tema poucas vezes foi explorado pelo cinema brasileiro (assim como a ficção científica como um todo). O Homem do Futuro surge para ajudar a preencher essa lacuna – e é divertido e agradável o suficiente para fazer o espectador perdoar algumas falhas e contradições do roteiro.

É impossível discutir O Homem do Futuro sem citar De Volta Para o Futuro -  a trilogia claramente foi uma inspiração para Cláudio Torres. Há, claro, homenagens escancaradas à série, como a abertura ao som de relógios ou as cenas filmadas a partir de diferentes pontos de vista do protagonista, após suas idas e vindas no tempo. Também estão lá as piadas ocasionadas pela volta ao passado, como aquelas relativa ao preço do táxi. A relação mais clara entre os filmes, porém, é no tom usado por Torres ao tratar do assunto. Assim como nos longas de Robert Zemeckis, o autor evita discussões científicas profundas e prefere apostar em uma narrativa leve, propondo-se a conquistar o espectador principalmente por explorar a nostalgia e paradoxos que o tema permite e o carisma dos personagens – e é definitivamente bem sucedido neste propósito.

O Homem do Futuro, contudo, prejudica-se ao não mostrar o mesmo cuidado que a trilogia de Zemeckis em relação à coerência dos acontecimentos, soando artificial em diversos momentos. A revolta de Zero com Helena e as mulheres em geral (“As mulheres são sinceras em todas as direções”) ao voltar ao passado, por exemplo, não se justifica quando a sucessão dos eventos da festa é esclarecida, sendo logo abandonada. Da mesma forma, o comportamento de Otávio (sua versão envelhecida) no terceiro ato não condiz com a sua personalidade mostrada no “futuro alternativo” até então – especialmente no que se refere à parceria firmada com determinado personagem. Finalmente, as personalidades distintas das duas figuras envelhecidas de Zero – o cientista e o astronauta – não convencem, visto que, apesar de um deles ter tido algumas experiências marcantes a mais, ambos têm a mesma trajetória, com apenas alguns dias de diferença – e o comportamento do cientista no conflito que surge entre ambos não condiz com sua inteligência.

Outro problema grave fica por conta dos atos executados por Zero no futuro alternativo que desenvolve – atos, diga-se de passagem, revelados em um diálogo extremamente expositivo, uma falha comum no longa que aqui chega ao seu ápice. Embora o protagonista tenha tido uma trajetória diferente da original, trata-se do mesmo personagem. É difícil acreditar que o garoto romântico e tímido de 1991 tenha mudado tanto de personalidade em apenas 20 anos, principalmente porque as motivações desta mudança não são esclarecidas (e é pouco convincente, a propósito, a falta de curiosidade de Zero em descobri-las). Fica evidente apenas que o novo comportamento do protagonista está relacionado à sua situação financeira – razão que, por ser apresentada de forma isolada, chega a soar preconceituosa.

Cláudio Torres, embora assine o roteiro, mostra mais cuidado nos detalhes técnicos da produção. A direção de arte, além de eficiente em ressaltar o momento onde o filme se encontra, ajuda a criar seu tom descontraído através de alguns apropriados exageros (como o prateado do futuro alternativo). Os figurinos, especialmente na festa à fantasia, também merecem destaque – além de serem divertidos, são condizentes com o perfil dos personagens. A montagem, sempre elegante, funciona bem em jamais deixar o espectador confuso apesar das idas e vindas no tempo. Além disso, é possível ver na transição que leva Zero de volta ao futuro pela primeira vez, onde a tela fica preta e depois branca, uma inesperada referência a A Igualdade é Branca – que não parece ter acontecido por acaso, dada a coincidência entre a reviravolta que vem a seguir, incluindo elementos muito particulares referentes à “mocinha”. A trilha sonora, finalmente, alegre e nostálgica, é genial na escolha de Tempo Perdido como tema principal – além de a música trazer uma letra condizente com as discussões da produção, um verso, em particular, prevê com sutileza uma atitude importante de determinado personagem.

Destaca-se também a atuação dos protagonistas. Elogios a Wagner Moura já se tornaram lugar-comum (o que só destaca a qualidade de seu trabalho), mas, novamente, são merecidos: impressiona sua facilidade para transitar entre o romance e a comédia, além de compor muito bem os diferentes momentos da vida de seu personagem. Alinne Moraes, por sua vez, também mostra talento ao transformar Helena, cuja personalidade obviamente é desenhada pelo roteiro de forma rasa em comparação à de Zero, em uma jovem conflituosa – sedutora, mas apaixonada por um nerd, e com interesses contraditórios. O casal é muito carismático, o que fica evidente nas cenas nas quais cantam Tempo Perdido – em particular, o catártico momento onde Zero finalmente sobe ao palco e solta a voz. Finalmente, não há como não elogiar o inteligente final – momento onde Cláudio Torres permite-se uma bem vinda ousadia, extraindo uma inteligente conclusão das viagens no tempo que vai além das usuais nos filmes do gênero.

É salutar que o cinema brasileiro mostre-se à vontade para realizar filmes de gênero de forma cada vez menos pontual e mais ousada. O Homem do Futuro é adorável e desperta no espectador o ímpeto de “defendê-lo” – mas os problemas existem e não podem ser ignorados. É um bom filme, mas é frustrante perceber o potencial para ser muito melhor. Fica a torcida para que um dia Cláudio Torres tenha a oportunidade de encontrar sua versão mais jovem e, ignorando os conselhos do protagonista que criou, possa se prevenir contra os deslizes e realizar um longa excepcional.

Cotação: ***

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