Sinédoque, Nova York – 2008, EUA. Direção: Charlie Kaufman. Elenco principal: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Samantha Morton, Michelle Willians, Emily Watson, Sadie Goldstein, Tom Noonan, Jennifer Jason Leigh, Robin Weigert, Hope David, Dianne Wiest. Duração: 123 minutos.
Sinopse: Após ser abandonado pela esposa, o dramaturgo Caden Cotard resolve criar a peça mais realista possível sobre a própria vida.
Responsável por trabalhos excepcionais como Quero ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Charlie Kaufman sempre foi um roteirista absolutamente diferenciado. O autor é capaz de proporcionar curiosas análises sobre a mente humana nos seus filmes. Kaufman nunca tinha, porém, mergulhado tão profundamente nessas análises quanto no seu primeiro longa como diretor. Sinédoque, Nova York é sua obra-prima.
Sinédoque é uma figura de linguagem pela qual se exprime o todo pela parte, ou a parte pelo todo. É, portanto, um nome mais que adequado para um filme recheado de representações e simbolismos. Caden Cotard, o protagonista, dramaturgo de talento, é abandonado pela esposa, a pintora Adele, que parte com a filha Olive, na mesma época em que ganha uma grande quantia financeira em um prêmio. Atormentado pelo abandono, por uma relação não bem desenvolvida com a bilheteira, Hazel, e por diversas doenças, Cotard decide criar sua peça mais ambiciosa: uma representação da (sua) vida da forma mais verossímil possível, com cenários gigantescos, dezenas de atores e em tempo real. O personagem fica tão obcecado com o realismo da produção que ela se torna interminável, além de entrar em uma espécie de ciclo infinito – há atores interpretando atores, cenários dentro de cenários e assim sucessivamente. É comum vermos cenas como aquela na qual a atriz que interpreta Hazel diz que “a atriz que interpreta Hazel está chegando”.
À medida que Cotard representa a si mesmo da forma mais realista possível, o mundo com que estava acostumado antes do projeto se torna cada vez mais distante – e, não à toa, enquanto o protagonista exprime sua arte multiplicando infinitamente a representação da sua realidade, a arte de Adele é expressa através do minimalismo – deve ser vista com lupas. A ex-esposa é inalcançável e quase invisível aos olhos de Cotard, que parece sempre estar um passo atrás dela – chega a encontrar seu café quente e o chuveiro ligado. Ao passo que ele não encontra a mulher, também não encontra a si mesmo – e tudo que cria parece uma busca por auto-conhecimento. Essa busca se torna mais convincente através da entrega do sempre genial Philip Seymour Hoffman, que transforma Cotard em uma figura multifacetada e complexa.
Os dilemas de Cotard, no longa, são sempre vistos através dos seus olhos, cheios de representações simbólicas. Kaufman retrata isso de forma muito eficiente – a casa incendiada, a presença de um velho à espreita, as respostas que procura através de um diário escrito “à distância”, a frieza absoluta de médicos que tratam de temas extremamente delicados. O protagonista, ao longo da construção de sua peça, passa a confundir (junto com o espectador) realidade e ficção. Em determinado momento, acredita que alguém limparia o sangue de um quarto como se estivesse em um set (quando não estava). Em outro, reclama com um ator por interpretar de forma equivocada uma cena (“não foi isso que eu fiz!”) onde, na verdade, o ator comete um gesto que nada tinha de interpretação.
Muitas das questões envolvendo Sinédoque, Nova York envolvem a constante presença da morte – em determinado momento, Sammy Benathan (o ator que interpreta Cotard) chega a dizer que a peça é sobre a morte, sendo imediatamente corrigido pelo seu autor, que afirma que a peça é sobre “tudo” (o que soa como Kaufman corrigindo o espectador pela mesma confusão). Sammy não tem, porém, essa impressão gratuitamente. O elemento morte, recorrente na trajetória de Kaufman, nunca tinha sido abordado de forma tão complexa. Os problemas de saúde do protagonista se sucedem, chegando a haver perda da saliva e das lágrimas. Hipocondríaco, está constantemente nos médicos. Além disso, dá sempre muita atenção às várias mortes das pessoas que o cercam – lembrando que vemos o filme sob sua perspectiva. Desta forma, os velórios são constantes. Com tudo isso, o tema vai se tornando uma obsessão para Cotard.
Kaufman é muito eficiente na forma de retratar essa obsessão. Vemos constantemente cores fúnebres na tela, como roxo e verde escuro. Os olhos de Cotard estão sempre à sombra e raramente focados – algo relacionado a um de seus problemas de saúde. Em vários momentos, ele traz a morte como parte do discurso – “A maior parte do tempo você está morto ou ainda não nasceu”, “Estou morrendo?”, “Estou sem ideias, estou morto”. Além disso, o diretor/roteirista é criativo ao nomear o personagem com o nome de uma doença – Síndrome de Cotard – que faz com que o paciente acredite estar morto.
Há ainda uma infinidade de aspectos a abordar sobre os simbolismos de Sinédoque, Nova York. O fato de Cotard jamais encontrar um nome e uma maneira ideal de realizar sua peça é interessante – de tão real, a peça jamais está encerrada ou definida (e o final do filme é extraordinário nesse aspecto). Outra questão interessante é o egoísmo que conduz a personalidade do protagonista – imerso em sua própria história, foca a atenção da sua vida praticamente apenas em mulheres, porém não percebe suas necessidades ou sentimentos – e sua reação ao saber do destino de Derek representa isso com precisão – além de não saber lidar com elas – aqui, cabe destacar sua reação a um pedido de perdão inusitado da filha.
Certamente, há ainda diversas outras questões a discutir – Sinédoque, Nova York convida o espectador a assisti-lo novamente e buscar novas observações e interpretações. Evidentemente, um longa tão recheado de simbolismos representa um risco. Em diversos momentos, o filme parece prestes a sair do controle do seu autor – algo que nunca ocorre. Sem dúvidas, Kaufman foi pretensioso ao ambicionar tratar de tantas questões pessoais e, ao mesmo tempo, universais, como as paranoias, o medo da morte e da solidão e as representações que todos fazem de suas vidas, sem didatismo, com tantas sutilezas e sempre respeitando a inteligência do espectador. Felizmente, conseguiu atingir suas pretensões de forma sublime.
O que o filme tem de mais grandioso é que há, no seu universo repleto de representações, duas camadas a mais. Cotard é interpretado por Sammy, mas também serve para interpretar as angústias e os pontos de vida de Kaufman – que, por sua vez, é intérprete das nossas angústias e dos nossos pontos de vista. Em determinado momento, o protagonista ouve (ou diz) que “Todos são todos. Você é Adele, Claire, Hazel, Olive, Ellen”. Sim, mas não apenas. Cotard também é Kaufman e também é o espectador. A produção transcende, portanto, o fenômeno da identificação do espectador com os personagens. Aqui, há também identificação do espectador com o diretor e roteirista, e deste com os personagens. Os estudos do autor sobre a mente humana se tornam coletivos. Uma realização absolutamente fascinante.
Cotação: *****

Nossa, difícil tarefa… só perde para a crítica de Cidade dos Sonhos que vai ser mais complicada, enfim! Os filmes do Kaufman são sempre intrigantes, estava bastante curiosa para assistir a um filme que ele também dirige. Mas acho que não fui tão bem preparada, o filme é cheio de simbolismos! É um filme criativo e envolvente, que nos deixa intrigados em muitas cenas e diálogos. Muito bem construído e dirigido! Amor, bela e difícil crítica! Parabéns!