Carros 2 – 2011, EUA. Direção: John Lasseter/Brad Lewis. Elenco principal (vozes): Larry the Cable Guy, Owen Wilson, Michael Caine, Emily Mortiner, John Turturro. Duração: 106 minutos.
Sinopse: Relâmpago McQueen, acompanhado de seu amigo Tom Mate, é desafiado e decide participar de um circuito mundial de automobilismo – entretanto, os dois acabam envolvidos em uma trama de espionagem.
Ao fim da crítica de Kung Fu Panda 2, afirmei que a Dreamworks ainda não havia aprendido uma lição dada pela Pixar: a técnica devia servir à história e aos personagens, não o contrário. É irônico que, poucas semanas depois, o estúdio que presenteou o cinema com obras como Wall.E e Toy Story 3 (entre várias outras) cometa o mesmo erro – pela primeira vez. Carros 2 é ótimo tecnicamente, mas a narrativa, mais que esquemática, é preguiçosa – e o protagonista é extremamente cansativo.
O início do filme é bastante promissor. A sequência do navio é impactante: tem ritmo, tensão, e, na homenagem prestada aos filmes de espionagem, diz a que veio e anuncia a proposta do longa – tematicamente, mais ambicioso que o original. Além disso, a cena exibe bastante apuro técnico, um mérito indiscutível de Carros 2. Em particular, a fluidez da água, antiga dificuldade das animações computadorizadas, impressiona. A invasão do navio e as perseguições são ágeis e dinâmicas. Os novos personagens que surgem aqui são desenhados de forma inteligente – o bigode de Finn McMíssil e o monóculo do Professor Z mostram que a criatividade do estúdio ao antropomorfizar os carros se mantém – o que se repetirá em relação, por exemplo, ao Papa e à Rainha.
Após a cena inicial, contudo, o filme nos leva à pacata Radiator Springs, e logo um de seus problemas é revelado: a personalidade de Tom Mate. Se, no primeiro longa, seu jeito infantil e atrapalhado já era explorado em uma dose ligeiramente acima da tolerável (embora ele ainda fosse divertido), neste, a dosagem é absolutamente desmedida. O roteiro de Carros 2 confunde sua ingenuidade com estupidez, tornando-lhe bastante desagradável – o que é mais grave considerando o fato de que o caminhão-guincho foi alçado a protagonista da trama. Mate se torna uma espécie de Homer Simpson, sendo incapaz de entender quando está cercado de carros perigosos, confundindo wasabi com sorvete de pistache ou entendendo que quando alguém se refere a agente secreto está falando de agente de viagens – e, acreditem, esses são apenas alguns dos vários exemplos que poderiam ser citados. Se as piadas envolvendo sua burrice já pecam por serem excessivas e tornarem o filme cansativo, são mais graves em momentos onde o protagonista, sem justificativa, tem insights de inteligência totalmente inesperados.
Tom Mate, porém, não é o único personagem que tem mudanças injustificadas na sua personalidade. Finn McMíssil e Holley Caixadibrita mostram-se completamente incapazes de perceber o óbvio mal entendido que cometem em relação ao protagonista – confusão que seria resolvida em minutos de uma conversa que agentes experientes como eles certamente teriam. Em vez disso, McMíssil simplesmente se convence que Mate interpreta um tipo de forma genial – algo que diz a ele em um diálogo artificial que, embora necessário para provocar determinada reação no caminhão-guincho, é excessivamente expositivo, recurso ao qual a Pixar não costuma recorrer. Relâmpago McQueen, por sua vez, tem atitudes agressivas com o amigo apenas para criar um drama envolvendo a amizade dos dois.
Os problemas de Carros 2 não se restringem às incoerências envolvendo as atitudes dos personagens. Recursos expositivos como o citado diálogo entre McMíssil e Mate são comuns. O conflito entre McQueen e o amigo é raso e recheado de frases piegas como “Se é seu melhor amigo, por que pediu pra ele não ser ele mesmo?” e “Quem encontra um amigo, encontra um tesouro”, incomuns na forma da Pixar explorar esse tipo de situação. Outro problema grave se encontra no desfecho: as pouco explicadas motivações por trás das atitudes do vilão são contraditórias e cheias de furos. Além disso, a conclusão do filme sobre a discussão envolvendo combustíveis naturais é eticamente preocupante.
Visualmente, é preciso dizer, Carros 2 é deslumbrante. Os personagens viajam por cidades como Tóquio, Paris, Londres e Porto Corsa (uma fictícia cidade italiana), e é difícil dizer qual paisagem impressiona mais. Cada um desses lugares é composto de forma absolutamente precisa – Tóquio é colorida e respira tecnologia (e a cena de Mate indo ao banheiro é das poucas gags que funcionam bem), Paris é romântica (reparem como algumas paisagens são levemente desfocadas, ressaltando esse aspecto), Londres é charmosa e traz a fotografia acinzentada, e Porto Corsa é deslumbrante – uma bela e justa homenagem dos produtores à Itália, país fundamental para o automobilismo.
Os espetáculos visuais, porém, não são suficientes pra salvar Carros 2. Curiosamente, em uma tentativa de defender a Pixar, muitos têm dito que o filme é apenas mais infantil que os outros da produtora. Embora o impulso de protegê-la seja natural, o argumento não é verdadeiro, visto que o longa é mais violento e com uma trama mais confusa e cheia de reviravoltas que a média – além disso, a tese é injusta com a inteligência das crianças, que, afinal, adoraram os outros trabalhos do estúdio (inclusive o sofisticado Wall.E). A Pixar é sim adorável, mas, é preciso reconhecer, não é mais infalível.
Cotação: **
P.S.: O curta-metragem que antecede o longa, Férias no Havaí, também é fraco. Desperdiça os ótimos personagens de Toy Story em uma historinha infantil e manjada, mais parecendo um spin-off feito em minutos que um trabalho realizado pelos criadores da excepcional trilogia.




