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Posts de junho \25\UTC 2011

Carros 2

Carros 2 – 2011, EUA. Direção: John Lasseter/Brad Lewis. Elenco principal (vozes): Larry the Cable Guy, Owen Wilson, Michael Caine, Emily Mortiner, John Turturro. Duração: 106 minutos.

Sinopse: Relâmpago McQueen, acompanhado de seu amigo Tom Mate, é desafiado e decide participar de um circuito mundial de automobilismo – entretanto, os dois acabam envolvidos em uma trama de  espionagem.

Ao fim da crítica de Kung Fu Panda 2, afirmei que a Dreamworks ainda não havia aprendido uma lição dada pela Pixar: a técnica devia servir à história e aos personagens, não o contrário. É irônico que, poucas semanas depois, o estúdio que presenteou o cinema com obras como Wall.E e Toy Story 3 (entre várias outras) cometa o mesmo erro – pela primeira vez. Carros 2 é ótimo tecnicamente, mas a narrativa, mais que esquemática, é preguiçosa – e o protagonista é extremamente cansativo.

O início do filme é bastante promissor. A sequência do navio é impactante: tem ritmo, tensão, e, na homenagem prestada aos filmes de espionagem, diz a que veio e anuncia a proposta do longa – tematicamente, mais ambicioso que o original. Além disso, a cena exibe bastante apuro técnico, um mérito indiscutível de Carros 2. Em particular, a fluidez da água, antiga dificuldade das animações computadorizadas, impressiona. A invasão do navio e as perseguições são ágeis e dinâmicas. Os novos personagens que surgem aqui são desenhados de forma inteligente – o bigode de Finn McMíssil e o monóculo do Professor Z mostram que a criatividade do estúdio ao antropomorfizar os carros se mantém – o que se repetirá em relação, por exemplo, ao Papa e à Rainha.

Após a cena inicial, contudo, o filme nos leva à pacata Radiator Springs, e logo um de seus problemas é revelado: a personalidade de Tom Mate. Se, no primeiro longa, seu jeito infantil e atrapalhado já era explorado em uma dose ligeiramente acima da tolerável (embora ele ainda fosse divertido), neste, a dosagem é absolutamente desmedida. O roteiro de Carros 2 confunde sua ingenuidade com estupidez, tornando-lhe bastante desagradável – o que é mais grave considerando o fato de que o caminhão-guincho foi alçado a protagonista da trama. Mate se torna uma espécie de Homer Simpson, sendo incapaz de entender quando está cercado de carros perigosos, confundindo wasabi com sorvete de pistache ou entendendo que quando alguém se refere a agente secreto está falando de agente de viagens – e, acreditem, esses são apenas alguns dos vários exemplos que poderiam ser citados. Se as piadas envolvendo sua burrice já pecam por serem excessivas e tornarem o filme cansativo, são mais graves em momentos onde o protagonista, sem justificativa, tem insights de inteligência totalmente inesperados.

Tom Mate, porém, não é o único personagem que tem mudanças injustificadas na sua personalidade. Finn McMíssil e Holley Caixadibrita mostram-se completamente incapazes de perceber o óbvio mal entendido que cometem em relação ao protagonista – confusão que seria resolvida em minutos de uma conversa que agentes experientes como eles certamente teriam. Em vez disso, McMíssil simplesmente se convence que Mate interpreta um tipo de forma genial – algo que diz a ele em um diálogo artificial que, embora necessário para provocar determinada reação no caminhão-guincho, é excessivamente expositivo, recurso ao qual a Pixar não costuma recorrer. Relâmpago McQueen, por sua vez, tem atitudes agressivas com o amigo apenas para criar um drama envolvendo a amizade dos dois.

Os problemas de Carros 2 não se restringem às incoerências envolvendo as atitudes dos personagens. Recursos expositivos como o citado diálogo entre McMíssil e Mate são comuns. O conflito entre McQueen e o amigo é raso e recheado de frases piegas como “Se é seu melhor amigo, por que pediu pra ele não ser ele mesmo?” e “Quem encontra um amigo, encontra um tesouro”, incomuns na forma da Pixar explorar esse tipo de situação. Outro problema grave se encontra no desfecho: as pouco explicadas motivações por trás das atitudes do vilão são contraditórias e cheias de furos. Além disso, a conclusão do filme sobre a discussão envolvendo combustíveis naturais é eticamente preocupante.

Visualmente, é preciso dizer, Carros 2 é deslumbrante. Os personagens viajam por cidades como Tóquio, Paris, Londres e Porto Corsa (uma fictícia cidade italiana), e é difícil dizer qual paisagem impressiona mais. Cada um desses lugares é composto de forma absolutamente precisa – Tóquio é colorida e respira tecnologia (e a cena de Mate indo ao banheiro é das poucas gags que funcionam bem), Paris é romântica (reparem como algumas paisagens são levemente desfocadas, ressaltando esse aspecto), Londres é charmosa e traz a fotografia acinzentada, e Porto Corsa é deslumbrante – uma bela e justa homenagem dos produtores à Itália, país fundamental para o automobilismo.

Os espetáculos visuais, porém, não são suficientes pra salvar Carros 2. Curiosamente, em uma tentativa de defender a Pixar, muitos têm dito que o filme é apenas mais infantil que os outros da produtora. Embora o impulso de protegê-la seja natural, o argumento não é verdadeiro, visto que o longa é mais violento e com uma trama mais confusa e cheia de reviravoltas que a média – além disso, a tese é injusta com a inteligência das crianças, que, afinal, adoraram os outros trabalhos do estúdio (inclusive o sofisticado Wall.E). A Pixar é sim adorável, mas, é preciso reconhecer, não é mais infalível.

Cotação: **

P.S.: O curta-metragem que antecede o longa, Férias no Havaí, também é fraco. Desperdiça os ótimos personagens de Toy Story em uma historinha infantil e manjada, mais parecendo um spin-off feito em minutos que um trabalho realizado pelos criadores da excepcional trilogia.

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Meia-Noite em Paris

Meia-Noite em Paris – 2011, EUA/Espanha.  Direção: Woody Allen. Elenco principal: Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Michael Sheen, Corey Stoll, Adrian Brody e Kathy Bates. Duração: 100 minutos.         

Sinopse: Escritor incompreendido pela namorada busca inspiração nos artistas dos anos 20 parisienses.

Em determinado momento de Meia-Noite em Paris, o protagonista Gil diz ser impossível criar uma obra de arte que possa competir com uma grande cidade. Woody Allen, talvez por concordar com seu alter-ego, acostumou-se a ter o local onde seus filmes se passam quase como co-protagonista – e, se isso geralmente acontecia em Nova York, recentemente o diretor tem prestado belas homenagens a outras cidades, como Londres, Barcelona e, aqui, Paris. O encantamento de Allen pela capital francesa serve como fio condutor para uma história que se propõe a discutir a arte sob diversos aspectos, sempre com muita eficiência.

Gil Pender é um roteirista de cinema cansado de produzir trabalhos descartáveis e interessado em redigir literatura de qualidade. Fascinado por Paris, por sua beleza e sua história, o escritor claramente encontra inspiração na cidade, e logo se interesse em ficar definitivamente por lá. Entretanto, Gil é um incompreendido por todos que o cercam. Sua namorada, Inez, não tem nada de romântica e o trata como um tolo, empregando sempre um ar de superioridade e mostrando admiração por um homem absolutamente arrogante, Paul Battes. Seus sogros também não fazem nenhuma questão de mostrar gentileza. Allen coloca Gil sempre deslocado nesse universo, calado e muitas vezes afastado do grupo – e da câmera.

O protagonista encontra, porém, um portal para o universo que mais lhe fascina: um calhambeque Peugeot o leva aos anos 20, sempre precisamente à meia-noite. Lá, a postura do personagem muda completamente: Gil fica mais solto, com mais falas, várias tiradas cômicas, a câmera se aproxima e ele literalmente cresce em tela. A criação de época de Allen é precisa, e, através dos figurinos e direção de arte, sem exageros nem obviedades, leva o espectador ao universo bucólico do período. A fotografia também é nostálgica e acolhedora e cria um contraste interessante com a fotografia fria do presente. O roteiro nos leva a compartilhar com Gil seu fascínio ao conhecer figuras como o impagável Ernest Hemingway, o casal Fitzgerald, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dalí – ponta onde Adrian Brody se diverte, e nos diverte, imensamente – e Buñuel, entre outros – lendas, ali, ainda distantes de compreender a dimensão que representam para a história da arte.

O contraste entre o aborrecido presente e o mágico passado frequentado pelo protagonista vai ficando cada vez mais claro – e Allen é particularmente brilhante ao retratar Gil, Inez e o casal amigo minúsculos em um museu grande, frio e distante onde ele se deparará com uma obra que viu ser discutida pelo autor sob uma proximidade de poucos metros de distância. Owen Wilson acerta em cheio ao mudar a postura e o tom do personagem nos dois universos. A família de Gil torna-se mais antipática a cada dia, especialmente Inez, composta de forma intencionalmente quase insuportável por Rachel McAdams – Gil tenta levá-la a compreender a magia do passado parisiense e, literalmente, não consegue. Nos anos 20, contudo, o escritor conhece uma mulher fascinante que representa tudo que o encanta, Adriana – e poucas poderiam personificar tão bem o charme misterioso da época quanto Marion Cotillard.

Adriana é fundamental como chave do  desfecho do longa. A reação da musa às pessoas que conhece no último lugar visitado por eles no filme é muito inteligente ao provocar o protagonista – e, por tabela, nos provocar – sobre como entender a história da arte e quais são os limites do fascínio e da nostalgia ao aplicá-la ao presente. O objetivo de Allen é nos fazer compreender a diferença entre se inspirar na história e ficar preso a ela, menosprezando a possibilidade de produções de qualidade também atuais. É através dessa compreensão, e com um empurrãozinho de uma dedução óbvia de Hemingway, que Gil se dá conta, junto com o espectador, de como deve conduzir o seu trabalho e de quais serão seus próximos passos.

Meia-Noite em Paris provavelmente fracassaria se Allen não conseguisse compartilhar com o espectador seu encantamento com a Cidade-Luz. Este não é, contudo, um problema do longa. Allen não desperdiça tempo e já nos transporta de imediato para Paris, abrindo seu filme com imagens espetaculares da cidade e discursos de amor a ela. Os planos abertos retratando o belo visual da Cidade-Luz dividem espaço com planos mais fechados dos personagens andando por suas belas ruas. Além disso, Allen nos leva ao universo trazendo uma participação da primeira-dama francesa, Carla Bruni – que traz o tom certo de sua personagem e não compromete. A trilha sonora, finalmente, embalada por canções do também personagem Cole Porter (assim como o protagonista, americano, mas que viveu em Paris e fez parte da geração de artistas da cidade à época), é usada com eficiência e também exerce um papel fundamental na imersão à cidade trazida pelo longa.

Ao final de Meia-Noite em Paris, o espectador certamente estará encantado pela capital francesa e buscando conhecer melhor os artistas que fizeram parte da “Geração Perdida” – termo cunhado por Gertrude Stein. Também estará questionando sua relação com a história e o presente da arte. Compartilhará, portanto, dos mesmos sentimentos do protagonista Gil, o que mostra a eficiência da identificação trazida por Woody Allen neste longa que, se não é tão genial quanto alguns filmes do autor, é bastante eficiente e acerta em cheio no que se propõe.

Cotação: ****

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Kung Fu Panda 2

Kung Fu Panda 2 – 2011, EUA. Direção: Jennifer Yuh. Elenco principal (vozes): Jack Black, Angelina Jolie, Gary Oldman, Dustin Hoffmann. Duração: 90 minutos.

Sinopse: Po, agora um guerreiro dragão, tem de enfrentar um inimigo poderoso – o pavão Lorde Shen, que tem um canhão capaz de destruir a China e o kung fu. Para vencê-lo, Po terá que encontrar com seu próprio passado.

Dificilmente um espectador sairá totalmente insatisfeito de uma sessão de Kung Fu Panda 2. Serão também raros, contudo, os apaixonados pelo longa. Amparada por uma animação de qualidade, a produção traz ideias interessantes – estas, porém, são exploradas de forma bastante irregular. A sensação, ao fim, é que o filme tem alguns méritos, entretanto desperdiça muito de seu potencial.

O protagonista, Po, é feliz e tem uma vida pacata como guardião do Vale da Paz. Surge, porém, um vilão capaz de destruir a China e o kung-fu – carregando um símbolo que, por algum motivo, amedronta o protagonista. Ele terá, então, de enfrentar dramas de sua história e “encontrar a paz interior” (mais uma vez, a Dreamworks investe em clichês de auto-ajuda mais que batidos). A busca de Po pelo passado é abordada de maneira convencional, e, se é tocante em alguns momentos, empalidece quando comparada à emoção trazida pelos longas da concorrente Pixar. Além disso, Kung Fu Panda 2 não consegue, ao contrário do original, convencer o espectador do perigo ao qual seu personagens estão submetidos – ao longo do filme, muitos obstáculos são resolvidos de forma fácil e rápida demais.

Contando com uma técnica eficiente, Kung Fu Panda 2 parece não saber dosar quando e como utilizá-la. Há um excesso de sequências de ação que, embora bem coreografadas, logo se tornam cansativas – algo parecido com passar muito tempo vendo alguém jogar video-game. Desta forma, as cenas onde a ação realmente se faz necessária, na reta final do longa, perdem força. Além disso, o filme cria momentos tecnicamente inspirados, mas é irregular ao usá-los. Às vezes, eles surgem de forma orgânica, como na introdução e nos belos flashbacks usando uma animação mais clássica (que se aproximada do 2D e remete ao anime), ou no eficiente raccord que liga determinada queima de fogos à porta do restaurante do pai do protagonista. Há, contudo, instantes onde a técnica é usada de forma artificial e exibicionista – como na própria queima de fogos em si, ou quando os personagens gratuitamente aparecem iluminados, remetendo a um sol, e Po diz em câmera lenta algo pouco condizente com o momento.

O filme peca, ainda, em um ponto fundamental: o desenvolvimento de seus personagens. Apenas Po, seu pai e a Tigresa recebem um tratamento adequado do roteiro. Vários outros personagens parecem estar ali apenas para encher a tela nas sequências de ação – e o espectador que sentiu falta no primeiro longa de uma abordagem mais interessante sobre os demais guerreiros do grupo (os mestres Louva-Deus, Víbora e Macaco) se decepcionará novamente. Como se não bastasse não elaborar com mais cuidado os originais, Kung Fu Panda 2 traz ainda novos personagens absolutamente desnecessários, como Mestre Boi e Mestre Crocodilo.  Mais grave: o filme tenta um repeteco da tartaruga Oogway através da vidente Falamacia – entretanto, se aquele servia pra justificar o treinamento de Po dado pelo mestre Shifu, esta serve apenas para lembrar constantemente o espectador que o vilão será derrotado, algo que o torna bem menos amedrontador – com o agravante de Lorde Shen ser inseguro e frágil, não lembrando em nada o assustador vilão Tai Lung do original.

Trocando o humor do original pela ação desenfreada, Kung Fu Panda 2 curiosamente  é mais eficiente justamente nos momentos cômicos – que, infelizmente, se mostram mais raros. A sequência de Po tentando se manter invisível, por exemplo, é hilária. Há outros exemplos, como a cena na qual a câmera nos surpreende quando Po sobe uma montanha ou a que se segue ao momento no qual o protagonista surge imponente em um telhado. Além disso, o filme ri de si mesmo – de suas frases feitas e lições moralistas (que, em geral, são chatas) – em um diálogo de Po e Lorde Shen sobre as feridas que se apagam.

Apesar dos méritos técnicos e de alguns bons momentos, a reação do espectador ao filme é morna. Realizado pela Dreamworks, o estúdio parece ainda não ter aprendido uma lição dada há anos pela concorrente Pixar: as várias possibilidades dadas pela animação, aliada ao desenvolvimento da tecnologia, devem sempre ser usadas para servir à história e aos personagens. Infelizmente, Kung Fu Panda 2 faz justamente o contrário.

Cotação: ***

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Hoje, o Luz, Câmera, Redação! completa 01 mês (a contar de seu primeiro post). Decidi, então, me presentear revendo o meu filme favorito e escrevendo sobre ele: De Volta Para o Futuro – na verdade, o primeiro longa de uma trilogia que pra mim é, na prática, um filme só. Faço uma advertência: não consigo ser imparcial o suficiente para falar com muita racionalidade sobre um longa que marcou minha infância e adolescência. Ia dormir e deixava a trilogia rodando no vídeo-cassete, sabia de cor boa parte de seus diálogos (dublados, admito), etc. Perdoem, portanto, eventuais exageros.

De Volta Para o Futuro – 1985, EUA. Direção: Robert Zemeckis. Elenco principal: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Crispin Glover, Lea Thompson,Thomas F. Wilson . Duração: 115 minutos.          

Sinopse: Jovem viaja 30 anos para o passado, de 1985 para 1955, mas não sabe como voltar – então, procura o cientista que inventou a máquina do tempo para ajudá-lo. Acaba cruzando o caminho dos pais e involuntariamente atrapalhando o romance dos dois – algo que precisa reverter, antes que literalmente deixe de existir.

Vários filmes podem ser considerados marcantes para a cultura cinematográfica de suas épocas. A quantidade se torna bem mais reduzida, porém, quando são analisados os longas capazes de marcar a cultura de sua época como um todo. Não são muitos os filmes que podem se gabar de terem sido capazes de romper os limites das salas e influenciar toda uma geração. De Volta Para o Futuro é um deles – não à toa, gerou inúmeros produtos decorrentes (entre eles, uma série em desenho animado), além, claro, de duas sequências de muito sucesso.

O absoluto sucesso não foi, evidentemente, obra do acaso. O filme, produzido por Steven Spielberg, contou com um trabalho primoroso de Robert Zemeckis (à época, quase iniciante), responsável tanto pelo roteiro (ao lado de Bob Gale) quanto pela direção. Zemeckis conseguiu uma feliz conjunção de vários elementos capazes de tornar um longa um sucesso. Como roteirista, sustentou um ponto de partida poderoso (a ideia da viagem no tempo é atrativa por si só) com um texto que, além de ser bastante criativo, tem o mérito de conseguir lidar com temas como morte, bullying e incesto mantendo-se leve e divertido – caso isso não acontecesse, o projeto, uma ficção científica voltada teoricamente para um público jovem, possivelmente fracassaria. Como diretor, conduziu sua história com segurança, além de – com a ajuda, claro, de Spielberg – ter montado uma equipe de trabalho excepcional, conseguindo transformar em referência praticamente todos os seus elementos técnicos – direção de arte, figurino, atuações, trilha sonora, efeitos especiais, etc.

O texto de De Volta Para o Futuro é, antes de tudo, muito bem humorado.  Zemeckis diverte-se criando piadas e situações inusitadas decorrentes da viagem no tempo. O diálogo do protagonista Marty McFly em uma lanchonete logo que ele chega ao passado é um exemplo (e impossível de ser traduzido para o português): “Me dê algo dietético?” – “Está me achando com cara de médico?” – “Ok, eu quero então uma Pepsi Free” – “Se quiser algo grátis, terá que pagar”. Outro exemplo é a reação do cientista Doc Emmett Brown ao descobrir que Ronald Reagan seria o presidente dos EUA. Pode-se citar ainda Marvin Berry ligando para seu primo Chuck, ou o shopping “Twin Pines Mall” passando a se chamar “Lone Pine Mall”.

O filme tem também o mérito de criar cenas inesquecíveis – muitas delas referenciadas pelos outros dois filmes da trilogia. A cena de Doc mostrando como se concretizará a volta de Marty ao futuro em uma maquete é um exemplo. A sequência onde McFly e Doc Brown concretizam o plano da maquete, tentando sincronizar suas ações para permitir que o protagonista volte ao seu tempo, também se tornou referência, graças a uma montagem precisa ao retratar a dupla, aos diversos imprevistos capazes de manter a tensão constante e aos bons efeitos especiais para criar o raio e a própria viagem no tempo. Há outras cenas que se tornaram históricas pelo bom humor, como quando Marty realiza uma performance exagerada em um solo de guitarra ou foge de skate do vilão Biff (esta, além do desfecho divertido, tem o mérito de ser filmada com muito dinamismo).

É impossível falar sobre De Volta Para o Futuro, contudo, sem destacar a importância dos protagonistas. Marty McFly, de certa forma, representava para aquela geração o que todo jovem queria ser – bem-humorado, com uma namorada bonita, guitarrista e skatista. Já Doc Emmett Brown era o cientista maluco que todos queriam ter como amigo – e quem não quer a amizade de alguém que, como se não bastasse te dar a oportunidade de viajar no tempo (em um DeLorean!), ainda tem um humor peculiar o suficiente para chamar um baile de “Cerimonial Rítmico”? Os dois foram interpretados por Michael J. Fox e Christopher Lloyd com talento suficiente para misturar, aos olhos do espectador, atores e personagens – chega a ser difícil imaginar que não tenham uma personalidade parecida com as de Marty e Doc Brown, respectivamente.

Os personagens secundários também são muito marcantes. Marty cria involuntariamente um mais que inusitado triângulo amoroso com seus pais, Lorraine e George. Lorraine surpreende de imediato o espectador, dado o choque entre o seu discurso na fase adulta e suas atitudes na juventude, choque este ressaltado também pela diferença no figurino – e sua ousadia é maior que as expectativas até o final. Já George tornou-se inesquecível (e um dos personagens preferidos dos fãs) devido a sua absoluta timidez e falta de jeito com tudo e com todos, evidenciada no jeito de se vestir, pentear, andar e falar – e é possível supor que seu desfecho motivou (e, por que não, ainda motiva) a mudança de atitude de muitos jovens de personalidade semelhante. Biff, por sua vez, é composto intencionalmente de forma quase caricatural – com roupas extravagantes, marca pela brutalidade. Vale notar como ele é constantemente filmado de baixo para cima, especialmente nos confrontos com os protagonistas, o que ressalta a ameaça física que representa.

Os figurinos, já citados na composição dos personagens secundários, são eficientes também na caracterização das épocas diferentes em que se passa o filme. Além deles, outros elementos técnicos também são marcantes em De Volta Para o Futuro. A direção de arte foi muito eficiente em recriar os anos 50. Cada ambiente, como a casa de Lorraine e a lanchonete, é cercado de elementos referentes à época. Além disso, o design de produção tem o mérito de fazer de Hill Valley, com a praça central e o indefectível relógio da torre, mais que outra personagem do filme: a cidade é um verdadeiro patrimônio histórico cinematográfico. As diferenças entre a HIll Valley dos anos 50 e 80 são particularmente divertidas. Além disso, não há como esquecer a trilha sonora. A trilha incidental de Alan Silvestri marcou época, trazendo uma música tema marcante que remete imediatamente à trilogia. Fora ela, a trilha traz canções inesquecíveis como Earth Angel, Johnny B. Goode e, claro, The Power of Love.

Contando com um tema poderoso – desenvolvido com eficiência em tantos elementos, o sucesso do longa foi uma consequência natural. Achar alguém da “geração anos 80” que nunca assistiu a De Volta Para o Futuro é raro, e é impossível falar na cultura desta época sem citar o filme. Certamente, a trilogia ainda será assunto nos fóruns, sites e nas ruas durante muito tempo – a não ser que estas últimas deixem de existir, naturalmente. Afinal, estamos falando de um futuro distante, e… “ruas? Para onde vamos, não precisamos de ruas”.

Cotação: *****

Bônus: Como presente de aniversário de 01 mês para o fã da trilogia, segue um vídeo: trecho de um episódio de Spin City onde Michael J. Fox e Christopher Lloyd se reencontraram. Apesar de curto, é divertido – e nostálgico.

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X-Men: Primeira Classe – 2011, EUA. Direção: Matthew Vaughn. Elenco principal: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Kevin Bacon. Duração: 132 minutos.

Sinopse: O filme retrata a juventude de Professor Xavier e Magneto, quando eram ainda apenas os jovens amigos Charles e Eric, e a criação dos X-Men.

Filmes adaptados de bons personagens de quadrinhos são sempre imprevisíveis. Por um lado, boa parte das revistas que os originam têm sucesso e apelo juvenil suficientes para que bobagens como Quarteto Fantástico consigam ser produzidas e atrair público. Por outro, estes personagens permitem que mesmo o apelo visual e as cenas de ação possam ser acompanhados por uma abordagem densa e inteligente, que, quando bem executada, é capaz de gerar longas extraordinários – como Batman: o Cavaleiro das Trevas. Definitivamente, X-Men: Primeira Classe está neste segundo grupo, fortalecendo o rol de grande obras do gênero “filme de super-herói”.

O maior trunfo de X-Men: Primeira Classe está nos seus protagonistas, Charles e Eric –nos primeiros filmes, Professor Xavier e Magneto, respectivamente (e deve-se destacar, desde já, a ótima atuação de James McAvoy e Michael Fassbender, fundamental para o sucesso do filme). Ambos por si só já são personagens capazes de promover questões interessantes, mas essas questões se tornam bem mais profundas em contraste, à medida que os dois se aproximam. Suas personalidades não poderiam ser mais opostas: enquanto Charles é sempre calmo e apaziguador, Eric é agressivo e age constantemente por impulso. Por isso, acabam desenvolvendo opiniões bastante divergentes sobre a forma de lidar com os seres humanos “normais”. Um acredita em dialogar com eles, o outro simplesmente pretende aniquilá-los por julgar-se superior.

Nada disso é novidade para quem assistiu aos outros filmes. Entretanto, enquanto antes o espectador já tinha a resposta sobre quem estava certo (afinal, havia um mocinho e um vilão), X-Men: Primeira Classe traz a pergunta – e muita gente sairá do cinema com um “será?” no pensamento. Isso porque o antigo vilão agora tem suas motivações claras e bastante dignas. O longa acaba formando um curioso paradoxo, já que Eric parece bem mais humano que Charles. Enquanto o primeiro teve o amor da mãe na sua infância, viveu experiências traumatizantes e é recheado de emoções e conflitos, o segundo teve uma relação distante com a mãe, algo que é retratado com bastante delicadeza, tem uma única amiga (o que Raven faz questão de dizer, logo no início do filme) e parece “superior”, optando sempre pela sabedoria e prudência. Apesar disso (ou por isso), é Eric quem se julga superior aos humanos e tem uma postura bélica em relação a eles (o que remete ao nazismo – curioso, dada sua infância).

O fato de Charles parecer mais sensato não faz, necessariamente, com que o espectador concorde com suas opiniões. Isso porque o filme faz provocações o tempo inteiro para que o contrário aconteça. Eric parece estar certo muitas vezes. Suas suspeitas em relação aos humanos são muitas vezes imediatamente confirmadas por eles, através das intenções declaradas pelos americanos e soviéticos. Outro exemplo é quando Charles quer mandar os mutantes recrutados para casa e o amigo facilmente lhe convence do contrário. Com isso, a bondade de Charles pode soar ingênua, e Eric mais preparado para entender a essência do ser humano, até por estar mais próximo a ele. A cena mais simbólica relacionada a isso ocorre especialmente na reta final, quando Eric, graças a seu cinismo em relação aos homens “normais”, está certo de algo que irá acontecer, o que Charles confirma usando seus poderes telepáticos. Certamente, Magneto ganhará adeptos de seu ponto de vista com o longa, o que torna a discussão sobre a melhor forma de confrontar o “diferente” proposta pela série bem mais profunda.

Os dois, por serem tão opostos, parecem se completar quase como id e super-ego, e é natural que a relação deles se torne tão próxima – um precisa do outro. Eric precisa de freios, de bom-senso e de encontrar algo bom nele (algo que Charles pode fazer literalmente). Charles, de amigos e de emoções – e em determinado momento no qual consegue sentir uma experiência particularmente tocante na vida do amigo, parece se emocionar até mais que ele. A relação deles aproxima Eric até da melhor forma (descoberta por Charles) de usar seu poder, o uso de determinado ponto das emoções que tem relação com o que um busca no outro – e notem como, na reta final, quando Eric dá uma mostra do quanto seu poder se desenvolveu, Charles dá um ligeiro sorriso orgulhoso antes de se mostrar preocupado. A forma como se conheceram também contribui bastante, claro, para o desenvolvimento da relação deles. Com isso, aliado ao belo desfecho dado a amizade dos dois, o respeito que mostram um pelo outro nos outros filmes – que poderia parecer inexplicável para o espectador não familiarizado com os personagens – fica plenamente justificado.

Outro aspecto que chama a atenção no longa é a sutileza com que apresenta determinadas informações. A natureza científica e intelectual de Charles, por exemplo, é evidenciada na infância não com diálogos, mas através de uma simples foto de Einstein no criado-mudo. O uso da música La Vie em Rose, de Louis Armstrong, para remeter a um personagem que o espectador pode não reconhecer de imediato, é de uma sutileza louvável. Há também o já citado breve sorriso orgulhoso de Charles. A relação de alguns personagens com outros da trilogia original também exige que o espectador lembre detalhes como sobrenomes e faça determinadas relações, ou conheça os quadrinhos – porém, tais detalhes não prejudicam em nada a experiência de X-Men: Primeira Classe para quem não os percebe.

Fora a discussão central envolvendo Eric e Charles, outra questão levantada por X-Men: Primeira Classe é sobre a relação das pessoas com a aparência. Raven rejeita sua pele azul e prefere ficar sempre com outro aspecto físico. O sentimento é compartilhado por Hank, com pés enormes e distorcidos. Porém, Eric mostra respeito e admiração pelo visual original de Raven – se o faz com sinceridade, por acreditar na superioridade dos mutantes ou para converter a garota a seus pontos de vista, depende da desconfiança do espectador, o que é fascinante em um filme que aborda tanto essa questão. O que sucede aos personagens – especialmente a Hank – torna o desenvolvimento desta trama ainda mais interessante.

É impossível falar deste filme sem citar, ainda, suas grandes cenas. Algumas chamam a atenção pela tensão latente, como a da infância de Eric ou quando ele senta para tomar cerveja com dois homens na Argentina. Outras trazem grande entusiasmo. O momento do recrutamento, por exemplo, tem uma agilidade na montagem e uma trilha sonora capazes de torná-lo bastante dinâmico, o que empolga o espectador – sem falar na presença de uma piada de timing preciso envolvendo um personagem muito querido pelo público, que chegou a ser aplaudida na sessão em que assisti. A mesma empolgação ocorre no treinamento na mansão de Charles. Há também cenas de ação muito bem realizadas, como a do navio, aquela onde os vilões invadem um lugar inesperado com extrema facilidade ou a extraordinária sequência final, que remete muito a James Bond.

Tudo isso só é possível, claro, graças a excelência dos elementos técnicos do longa. A trilha sonora é pulsante, faz-se sempre presente e dita o ritmo das cenas. A direção de arte também é muito eficiente (e retrata com clareza os anos 60). A montagem, por sua vez, é precisa. A forma como são montadas as cenas onde Charles está na mente de outras pessoas, por exemplo, é digna de nota. Além disso, tem o mérito de conseguir fazer com que o espectador não se confunda em nenhum momento em cenas de ação – mesmo na reta final do filme, que envolve um espaço amplo e vários personagens.

Diante de tantos elementos primorosos, muito dificilmente o espectador não sairá entusiasmado de uma sessão de X-Men: Primeira Classe. O filme, tecnicamente brilhante e empolgante enquanto “filme de super-herói”, mas capaz também de provocar várias discussões, consegue satisfazer todo tipo de público. E é sempre louvável quando um longa é capaz de explorar todo o potencial que o argumento e o material sobre o qual ele se adaptou oferece.

Cotação: *****

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