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Outubro/Novembro uma pinoia. Sim, o blog está parado há mais tempo que eu gostaria, e eu sei que meus oitocentos oito leitores estão decepcionados. Peço desculpas, mas é por uma boa causa – passei no concurso em questão. E isso significa mudança, e planos, e venda de apartamento, e pesquisa de apartamento na cidade de destino (São Paulo, provavelmente), etc. Ao mesmo tempo, veio outro concurso que pretendo fazer, com provas em Março. Acabo ficando sem tempo e foco para o site, o que é uma pena, especialmente em tempo de filmes tão relevantes como os recentes Django Livre, As Aventuras de Pi e Amor (esse, ao meu ver, especialmente arrebatador e merecedor do Oscar de melhor filme e qualquer outro prêmio que venha a concorrer). Repito o que disse, porém: prefiro não escrever do que me forçar e escrever por obrigação, o que inevitavelmente prejudicaria a qualidade dos textos.

Mas esse site precisava respirar, e tive uma ótima oportunidade através de uma crítica gentilmente cedida ao blog por meu amigo André Lessa. Lessa, que eu já sabia ser excelente escritor de ficção (e devia tirar os textos da gaveta), agora revela grande qualidade também como crítico, analisando o ótimo novo trabalho de Quentin Tarantino, Django Livre, em um texto fluido, maduro e rico. Espero que gostem.

De minha parte, fica mais um breve-até-breve. I’ll be back. Vocês duvidaram quando o Schwarzenegger falou, e olha ele aí. Agora, sem mais delongas e piadinhas sem graça, vamos a Django.

Django Livre (Django Unchained) – 2012, EUA. Direção: Quentin Tarantino. Elenco principal: Jamie Foxx, Christolph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, James Remar, Don Johnson, James Russo, Bruce Dern, M.C. Gainey, Jonah Hill, Zoe Bell, Robert Carradine, Tom Savini, Michael Parks, Franco Nero e Samuel L. Jackson. Duração: 141 minutos.

Sinopse: Django, um escravo, é resgatado pelo caçador de recompensas Schultz, que precisa de sua ajuda. Em troca, Schultz ajuda Django a resgatar sua esposa das mãos do cruel Sr. Candie.

Texto escrito por: André Lessa

Quentin Tarantino não tem pressa. Ao contrário de diretores como Woody Allen, que lançam praticamente um filme por ano, sua filmografia se resume a 8 obras (7, se você considerar “Kill Bill” Vol. 1 e Vol. 2 como um filme só), ao longo de quase 20 anos. Se por um lado este fato reduz a possibilidade de tropeços, contribuindo para ele não ter sequer uma obra ruim no currículo, por outro aumenta perigosamente a expectativa, e a possibilidade de frustração, a cada trabalho, o que contribui para uma recepção morna caso o padrão de excelência não seja alcançado. Da mesma forma, e considerando que praticamente todos os grandes diretores possuem fracassos no currículo, existe sempre a possibilidade (e, é inegável, quase uma torcida mórbida) para que o mais novo filme de Tarantino seja aquele no qual ele finalmente sucumbiu ao próprio ego, perdeu a mão e tropeçou feio.

Bem, ainda não foi dessa vez. “Django Livre”, a homenagem do diretor ao gênero western, em especial os chamados “western spaghetti”, é excelente, e ainda melhor que o último filme do diretor, “Bastardos Inglórios”. O filme não só reúne o que há de melhor no estilo e na obra de seu realizador, como revela um inesperado frescor e, em certos aspectos, Tarantino se reinventa. E mais: não é o melhor, mas é o filme mais emotivo e, por incrível que pareça, político do diretor.

Em síntese, a trama é a seguinte: em 1858, dois anos antes da Guerra Civil americana, Django (Foxx), um escravo, é tirado das mãos de mercadores pelo caçador de recompensas Schultz (Waltz), que precisa de sua ajuda para localizar um novo alvo. Depois disso, Django e Shultz acabam virando parceiros e se unindo para resgatar a esposa de Django, Broomhilda (Washington), das mãos do Sr. Candie (DiCaprio), uma tarefa extremamente difícil.

Quase todas as “assinaturas” de Tarantino, como os zooms rápidos, estão presentes com abundância em “Django Livre”. A trilha sonora, como de hábito, é um completo show à parte. Não apenas cada música complementa e se enquadra perfeitamente em sua respectiva cena, mas dá vontade de correr para comprar o CD assim que acaba o filme. Além disto, ao misturar acordes/temas clássicos do western, como Ennio Morricone, com rap, dentre outros, ele ao mesmo tempo homenageia e subverte o gênero, de formas que poucos conseguem fazer. A exploração da violência, outra marca registrada do diretor, também se faz presente com maior intensidade do que nunca, seja em uma longa (e sangrenta) sequência de tiroteio, um confronto físico particularmente perturbador e repugnante ou belíssimos planos como sangue manchando campos de algodão branco. As brincadeiras com a fotografia aparecem em destaque nos flashbacks de Django e Broomhilda no passado, dando às cenas uma adequada aparência de sonho/delírio.

Junto com a violência, não falta humor negro ao filme, sendo todo o final do terceiro ato, em particular, um deleite neste sentido. Os diálogos circulares, abundantes e por vezes prosaicos, talvez a mais conhecida característica do diretor, obviamente percorrem toda a narrativa, embora de forma levemente modificada, conforme será comentado abaixo. Por fim, o roteiro extremamente amarrado, sem furos, atitudes inexplicáveis ou situações forçadas, confirma a habilidade do autor enquanto roteirista, como demonstra um detalhe aparentemente irrelevante que terá imensa importância mais à frente. Numa época onde os roteiristas cada vez mais parecem achar que basta criar grandes momentos de impacto, sem uma estrutura ou um encadeamento coerente entre os fatos, é um alívio ver o trabalho de quem realmente entende do ofício.

Mas Tarantino não se limita a velhos truques. Ao final do longa, resta a sensação de que o cineasta manteve o estilo, as marcas e a essência, mas não se repetiu. Não existe nesse filme a conhecida fixação em pés femininos, por exemplo. Da mesma forma, este é o primeiro filme de Tarantino desde Cães de Aluguel sem uma figura feminina marcante (sem a “musa”, por assim dizer), haja vista que a personagem de Kerry Washington, Broomhilda, tem muito pouco tempo de tela e  participação secundária. Embora alguns possam considerar um defeito, penso que o autor merece aplausos por seguir o rumo que a narrativa pedia, ao invés de tentar incluir uma maior participação feminina de forma artificial. Até mesmo os diálogos “tarantinescos”, mesmo presentes, estão um pouco mais contidos, burilados, que o normal. Tarantino parece ter, finalmente, vencido sua compulsão em escrever, e filmar, mais diálogos do que o necessário, e não há no filme uma cena sequer que passe a impressão de ter alguma “gordura” para cortar. A habitual estrutura não-linear e repleta de flashbacks, mudanças de foco na narrativa e idas e vindas no tempo também é mitigada no filme, que talvez seja o mais convencional, em termos de estrutura, da carreira do cineasta (o que não é, de forma alguma, um defeito). Talvez seja uma maneira que o autor encontrou para compensar um pouco a ausência de sua  inseparável montadora Sally Menke, falecida em 2010. De toda sorte, por mais que o trabalho de Menke fosse espetacular, a montagem deste filme, trabalho de Fred Raskin, é competente, fluida e eficiente.

Entretanto, todo este conhecido domínio técnico não pode ofuscar outra característica importantíssima da filmografia de Tarantino, e que neste filme está mais presente do que nunca: a qualidade das atuações. Não é exagero afirmar que todo o elenco de “Django Livre” está, no mínimo, excelente. Jamie Foxx está soberbo como o protagonista, ilustrando com segurança toda a transformação, todo o arco dramático do personagem ao longo do filme. Christoph Waltz, embora praticamente repita o seu Hanz Landa de Bastardos Inglórios numa versão boazinha, o faz com admirável e absoluta competência. Samuel L. Jackson tem sua primeira atuação de verdade em anos, espetacular e hipnotizante como alguém que é muito mais do que aparenta à primeira vista. Até o próprio Tarantino, que, convenhamos, enquanto ator, é um excelente diretor, está impecável (e gordo) em seus poucos minutos na tela. Em suma, todo o elenco brilha… mas Leonardo DiCaprio ofusca.

Ator sempre competente, mas por diversas vezes (e razões) subestimado, ele entrega talvez a melhor atuação de sua carreira, e a sua não indicação ao Oscar de ator coadjuvante é mais uma na longa série de injustiças pelas quais a Academia já é famosa. Com a linguagem corporal totalmente modificada, DiCaprio varia do caricato ao tenso, do cortês ao diabólico, com admirável naturalidade e desenvoltura. Algumas das cenas mais importantes do filme, sejam envolvendo aulas de frenologia, matilhas de cães ou apertos de mão, dependem totalmente do seu desempenho, e ele  cumpre a tarefa com louvor.

Porém, talvez a melhor, e mais surpreendente, característica do filme seja a abordagem direta, clara e sem concessões, quase raivosa, que Tarantino faz da escravidão. Enquanto alguns diretores apelariam para discursos edificantes, diálogos expositivos, obviedades e afins, ele enfia o dedo na ferida com força, ao mesmo tempo em que entretém, diverte e conta uma saga de busca, vingança e, por que não, amor. A escravidão em momento algum é tratada em tom pedagógico ou buscando arrancar lágrimas da plateia, mas desafio alguém a me mostrar um filme recente que retrate os horrores da mesma de forma mais intensa que “Django Livre”. Uma cena em especial, envolvendo um crânio, expõe o racismo em toda a sua essência, dos argumentos pseudocientíficos à redução do ser humano a “minha propriedade”, de forma enojante.

“Django Livre”, como todos os filme de Tarantino, é diversão de primeira linha, repleto de ação, humor, diálogos mordazes, ironia, tiros, frases de efeito e deliciosos absurdos, mas também é uma crítica violenta e feroz ao racismo e à escravidão, bem como uma afirmação do poder de reação e de luta do negro contra a segregação e opressão racial (o que, ressalte-se, torna ainda mais incompreensíveis os protestos de Spike Lee e cia, que enxergaram num filme uma conotação racista que beira o absurdo). Ademais, o diretor, repetindo o que fez com Hitler em Bastardos Inglórios, também lança mão de um recurso tão ou mais eficiente que o ataque direto: a ridicularização. Existe no filme uma cena envolvendo uma espécie de precursores da Ku Klux Klan  que já nasce antológica e, além de arrancar sonoras gargalhadas, tem mais a dizer sobre esta organização e seus membros que muitos filmes e cenas, digamos, “sérios”.

Além disto, esta se revela talvez a obra mais emotiva de Quentin Tarantino. Criticado muitas vezes por supostamente não apresentar intensidade emocional em seus filmes (injustamente, ao meu ver, haja vista cenas como o belíssimo final de Kill Bill Vol. 2), ele, fiel ao seu estilo, obviamente passa longe do melodrama, da trilha manipulativa ou de qualquer recurso fácil para fazer o espectador se emocionar. Porém os sentimentos estão ali, claros e palpáveis, seja no olhar do personagem que assiste impotente a um ente querido ser ameaçado, na expressão de quem não consegue ficar incólume aos horrores da escravidão, ou em lembranças de dolorosas (e inúteis) auto-humilhações, dentre outros exemplos. Tarantino com certeza não é o sujeito mais sensível do mundo, mas está deixando mais brechas de emoção genuína sob a fachada de humor negro e violência.

E quando, por fim, as luzes da sala de projeção se acendem, fomos presenteados com um excelente filme de um cineasta que, com apenas oito longas na carreira, exerce uma influência e possui um destaque inegáveis, e merecidos, na indústria. Um autor que vem se equilibrando com admirável habilidade na linha entre manter a essência e se reinventar. E, principalmente, vem demonstrando em seus últimos trabalhos um inesperado – e muito bem vindo – interesse em temas historicamente sensíveis e problemáticos, que aborda com sutileza e contundência sem apelar para panfletagem e tampouco se desviar da história contada. Um novo ingrediente que se encaixou muito bem em sua mistura habitual.

Se é assim que Quentin Tarantino gosta de trabalhar, que passem mais três anos até o seu próximo trabalho, se for preciso. Definitivamente, vale a pena esperar.

Cotação: *****

Breve Hiato

Amigos,

Em Setembro, farei um concurso público para o qual venho estudando já há algum tempo, que teve edital lançado este mês.

Esta reta final demanda concentração e foco. Portanto, não poderei me dedicar às críticas como gostaria. Entre escrever textos mais curtos e menos elaborados que o padrão do site, prejudicando sua qualidade em nome da continuidade, ou fazer um breve intervalo, escolhi a segunda opção.

O hiato tem data pra acabar. O Luz, Câmera, Redação! volta ou em Setembro (após a prova), ou em Outubro/Novembro, caso eu passe para a segunda fase (que assim seja!).

Obrigado e até breve,

Bruno Tasca

O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man) – 2012, EUA. Direção: Marc Webb. Elenco principal: Andrew Garfield, Emma Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Sally Field, Chris Zylka, Martin Sheen, Irrfan Khan, Chris Zylka, Campbell Scott, Embeth Davidtz, C. Thomas Rowell, Skyler Gisondo. Duração: 136 minutos

Sinopse: Reboot da história do Homem-Aranha. Mordido por uma aranha modificada em laboratório, Peter Parker passa a ter características similares às do inseto. Em decorrência, transforma-se em super-herói.

Hollywood, recentemente, tem produzido uma boa safra de filmes protagonizados por super-heróis – como exemplos, podem ser citados X-Men: Primeira Classe, Batman: o Cavaleiro das Trevas e Os Vingadores. Neste contexto, O Espetacular Homem-Aranha, reboot da série recente protagonizada por Tobey Maguire, tinha potencial para inserir o protagonista no rol de longas amadurecidos do gênero. O resultado, porém, é oposto: em relação ao original, o último filme fracassa tanto quando tenta copiá-lo quanto ao tentar inovar (exceto nas sequências de ação), soando como uma versão pálida e descartável do ótimo Homem-Aranha produzido em 2002.

A trama é bastante similar à original. Peter Parker (Garfield) é um típico jovem nerd norte-americano, tímido com as garotas e vítima de bullying. Após ser mordido por uma aranha modificada geneticamente, passa a ter características do inseto, como a capacidade de escalar paredes e lançar teias. Após a morte de seu tio Ben (Sheen), que Parker poderia evitar, passa a combater o crime em Nova York e torna-se um super-herói, o Homem-Aranha. Envolve-se com Gwen Stacy (Stone), filha de George Stacy (Leary), um policial que não confia no herói e pretende prendê-lo. Enquanto isso, o cientista Curt Connors (Ifans), antigo sócio do Richard Parker (Scott), pai de Peter, na esperança de recuperar seu braço, aplica-se um soro que, inesperadamente, acaba alterando sua personalidade, força e forma física – transformando-lhe no vilão Lagarto.

Mais intimista que Sam Raimi, o diretor, Marc Webb, dá um foco maior para Peter Parker que para seu alter-ego, apostando em uma longa introdução antes da transformação do herói. E até haveria material dramático para isso: Peter foi abandonado pelos pais e não sabe exatamente o motivo. O problema é que seus dramas são explorados de forma superficial e inadequada – o que faz com que o protagonista soe como um jovem rebelde sem causa, quase um parente distante de Edward Cullen, o “vampiro” de Crepúsculo. Chorar a ausência do pai e sair batendo a porta em decorrência de uma discussão por ter esquecido de buscar a tia – obrigando May (Field) a andar diversos quarteirões -, por exemplo, não transforma um personagem em alguém complexo com conflitos profundos, mas sim em um adolescente mimado. Decepcionar-se consigo mesmo por esquecer de levar ovos para a tia e ficar mal humorado por isso, da mesma forma, não é lá um drama muito convincente.

Se, em casa, os conflitos do protagonista são pouco convincentes, na escola isso não é diferente. O roteiro de James Vanderblit, Alvin Sargent e Steve Kloves explora todos os clichês dos colégios norte-americanos. Quando Flash Thompson (Zylka) humilha um garoto no início do longa, absolutamente ninguém se prontifica a defendê-lo – exceto, que surpresa, Peter Parker (que acaba agredido) e sua futura namorada, Gwen Stacy.  É claro que isso motiva uma vingança de Peter – e, não menos óbvio, a partir daí Flash aprende a lição e passa a mostrar humildade. Alguns podem dizer que esta previsibilidade (e outros defeitos do roteiro) decorre da fidelidade aos quadrinhos. Ocorre que O Espetacular Homem-Aranha não é uma reprodução absoluta das revistas (e nem poderia, já que o formato exige alterações), mas uma adaptação – e muda detalhes da história original bem mais importantes, como ao explorar os pais de Peter. Fidelidade, portanto, não justifica a exploração infantilizada e preguiçosa dos clichês ou qualquer outra falha do filme.

Por falar na adaptação dos quadrinhos, a abordagem de pilares da trama do personagem nas revistas – e no filme original – também não funciona adequadamente. A morte do tio Ben, por exemplo, não emociona. Além de rápida, decorre de um evento muito aleatório, um assalto presenciado por Peter, com uma confusa discussão anti-climática sobre moedas de um centavo. No longa de Sam Raimi, a sequência era muito mais amarrada e coerente – partia da decisão de Peter em ganhar dinheiro com a luta livre e usava uma situação verossímil de exploração financeira destes lutadores. Comparação similar ocorre com a piada do uniforme “tosco” – era muito mais divertida, orgânica e bem explorada na produção anterior. Finalmente, a solução análoga à do original para a relação do vilão com o protagonista – antes pai de amigo, agora amigo do pai – passa longe da criatividade.

O vilão, a propósito, é muito pouco convincente. Os limites do controle do cérebro de Lagarto sobre o corpo quando transformado são mal delineados. Suas motivações, da mesma forma, em nenhum momento ficam claras. Às vezes abomina a espécie humana, outras quer ajudá-los a evoluir – e a motivação inicial, buscar vingança após uma demissão arbitrária (em mais um clichê do longa), é abandonada. Sua concepção física também é artificial – empalidece, especialmente, quando comparada à do Hulk, de Os Vingadores. Em alguns momentos, chega a lembrar os monstros mal feitos de seriados japoneses – algo que, de forma não intencional, até o roteiro parece ironizar: “Eu pareço o prefeito de Tóquio pra você?”.

O Homem-Aranha, por sua vez, é bem mais convincente que seu adversário. Seu uniforme, além de modernizado, é tratado de forma mais realista – fica sujo durante as batalhas, por exemplo. As sequências de ação envolvendo o herói também evoluem tecnicamente. O 3D também é bem utilizado e proporciona sequências interessantes do protagonista visto em primeira pessoa – ainda que isso seja explorado de forma natural somente na primeira vez em que ocorre, quando ajudava a gerar identificação com um protagonista descobrindo seus poderes (nas outras vezes, é apenas pirotecnia).

O homem embaixo da máscara, contudo, entusiasma menos que o herói em que ele se transforma. Andrew Garfield pouco tem a fazer para dar brilho a Peter Parker. Além de aborrecido, o personagem toma diversas atitudes estúpidas, contradizendo sua inteligência. Chama a atenção, por exemplo, as diversas vezes em que Peter tira a máscara gratuitamente, ou seu impulso de revelar, sem necessidade, a identidade para determinada personagem. Também soa absurdo Peter tentando convencer George Stacy da identidade do Lagarto. Mais grave que isso, contudo, é a inacreditável presença da frase “Propriedade de Peter Parker” em determinado aparelho – quase uma referência involuntária a um episódio dos Simpsons em que Bart comete erro semelhante com frase idêntica em um radinho no fundo de um poço (no episódio, porém, a burrice era intencional).

A estupidez de Peter nestes momentos reflete a aposta que o filme faz na falta de inteligência do espectador. Há diversos diálogos expositivos, alguns escancarados – a ponto de uma lembrança do Dr. Ratha (Khan) para Connors começar com “vou te lembrar o que aconteceu” (e ele evidentemente já lembrava). Também é absurda a forma com que a polícia atinge o Homem-Aranha, depois de o protagonista ter se livrado com facilidade de situações equivalentes mais complicadas. O público ainda tem de lidar com coincidências artificiais como o emprego do pai de um garoto que é salvo pelo herói, ou frases sem sentido usadas apenas para criar efeito, como “Seu namorado é um homem de muitas máscaras”.

Não é surpreendente, portanto, que a namorada de Peter também tenha atitudes contraditórias com o intelecto. Supostamente inteligente, Gwen desobedece ao Homem-Aranha e tenta atacar o vilão, movida por uma espécie de impulso suicida que, ultimamente, tem dominado as namoradas dos super-heróis – já havia ocorrido com Jane, em Thor. Apesar disso, a Gwen Stacy de Emma Stone – que, em mais uma atuação carismática, vem ganhando terreno em Hollywood – é um dos pontos fortes do filme. A personagem foge do clichê “mocinha linda e inatingível” – embora bonita, não chega a ser uma musa da escola, e não há grandes obstáculos para a aproximação de Peter. O romance entre o casal evolui de maneira fluida, sem grandes exageros dramáticos.

Outro aspecto em que o filme se sai razoavelmente bem é no humor. As brincadeiras debochadas do Homem-Aranha divertem, assim como piadas relativas a instintos inesperados da sua associação com o inseto, como a vontade de comer uma mosca. O momento mais engraçado do filme, porém, é mesmo a cena com a participação de Stan Lee – e dizer mais que isso seria spoiler. É uma pena somente a decisão de tirar o personagem mais espirituoso do filme anterior, J. J. Jameson – a implicância do antigo chefe de Peter com o super-herói é representada aqui por George Stacy, mas sem o elemento cômico anteriormente utilizado.

Tecnicamente, os maiores acertos do longa ficam mesmo por conta do 3D e das sequências de ação. A trilha sonora é convencional e quase onipresente, o que a torna absolutamente cansativa – isto fica claro nas boas cenas sem trilha, como quando Gwen Stacy se esconde do Lagarto no laboratório. A montagem tem alguns momentos inspirados, em particular os raccords ligados à ótima cena no metrô, inicialmente associando a velocidade do trem à suposta velocidade com que o sangue corre na veia de Peter e, depois, levando o protagonista para uma imensa Nova York. Os montadores, Alan Edward Bell e Pietro Scalia, não conseguem, porém, dar ritmo ao filme, que soa arrastado.

Contando com um epílogo interessante, o longa dá ao fã do protagonista a esperança de uma sequência melhor. Caso isso se confirme, apenas reforçará sua natureza deslocada, já evidente na comparação com o original ou com as boas produções recentes protagonizadas por super-heróis. Apesar de um ou outro aspecto positivo, O Espetacular Homem-Aranha é um filme sem vida própria. E poucas figuras poderiam ser mais opacas que um super-herói sem alma.

Cotação: **

Prometheus

Prometheus (Prometheus) – 2012, EUA. Direção: Ridley Scott. Elenco principal: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Logan Marshall-Green, Charlize Theron,Guy Pearce, Idris Elba, Sean Harris, Rafe Spall, Emun Elliott, Benedict Wong. Duração: 126 minutos.

Sinopse: Ao descobrirem indicações arqueológicas sobre as origens da humanidade, grupo de exploradores realiza viagem espacial a bordo da nave Prometheus em busca dos seus criadores.

Em 1979, foi lançado um dos maiores clássicos da ficção científica, Alien – o Oitavo Passageiro. Desde então, a série e seu diretor, Ridley Scott, seguiram caminhos distintos, mas com destinos semelhantes. Enquanto a série se perdeu mesmo com outros diretores também respeitados (com exceção de Paul W. S. Anderson), Scott gradativamente entrou em declínio – até chegar ao massacrado pela crítica Robin Hood.

Por isso, o anúncio do reencontro, em Prometheus, entre o universo dos aliens e seu realizador original, gerou bastante expectativa. O resultado, contudo, é decepcionante. O longa não chega a ser um fracasso – tem os seus méritos, especialmente nos aspectos técnicos. Entretanto, o roteiro boicota o filme em diversos aspectos – a destacar pela pretensão de discutir de forma excessivamente escancarada fé, criação e ciência um roteiro absolutamente raso e repleto de raciocínios infantis e personagens pouco inteligentes.

Prometheus se inicia em 2089. Baseados em descobertas arqueológicas envolvendo desenhos de gigantes e estrelas em diversas civilizações, um casal de arqueólogos, Elizabeth Shaw (Rapace) e Charlie Holloway (Marshall-Green), conclui que os seres humanos foram criados por seres de outro planeta – indicados por aquelas gravuras. Com o auxílio de outros exploradores, então, partem em busca destes criadores (denominados Engenheiros). Lá chegando, contudo, descobrem que os Engenheiros se voltaram contra os seres humanos e passam a correr risco de vida.

Os problemas do filme já ficam claros em sua premissa – a absurda conclusão do casal. Sem dúvidas, a descoberta de desenhos semelhantes em civilizações diferentes e desconectadas apontando as mesmas estrelas e com homens gigantes seria algo relevante e digno de estudos. Como, a partir disso, Shaw e Holloway chegaram à absurda convicção de que aqueles gigantes eram os criadores da raça humana, é difícil explicar. Como justificativa, o longa apresenta somente o “escolhi acreditar” da cientista (cientista!). Nada contra a fé – mas gastar 1 trilhão de dólares em uma expedição espacial a partir das crenças de dois ou três indivíduos já é outra história.

Para Scott, porém, o raciocínio destes indivíduos, certamente, reflete o do público, já que ele não confia nem um pouco no seu espectador. Certos diálogos do filme, absolutamente expositivos, mereceriam respostas na linha “tolerância zero”. Quando um personagem diz “Eles podem salvar-me”, por exemplo, esta fala já seria desnecessária de tão óbvia no contexto – e ver Shaw perguntar “de que?” na sequência é inacreditável. Da mesma forma, ver um robô inteligentíssimo perguntar “você ainda acredita, não é?” quando uma personagem busca um crucifixo me fez torcer verdadeiramente para ela dizer que estava resgatando a joia somente pelo seu valor financeiro. Além disso, a incessante explicação da trama do filme, rediscutida o tempo todo entre os personagens, soa nitidamente como uma tentativa de explicar para a plateia o que está ocorrendo.

Não é somente nos diálogos ou na conclusão sobre os desenhos arqueológicos que o raciocínio da tripulação soa aquém do que seria esperado para cientistas.  Ver Milburn (Spall) e Fifield (Harris), respectivamente biólogo e geólogo, abandonando o grupo e se perdendo mesmo tendo tecnologia de ponta à disposição é de uma estupidez quase cômica – só igualada por aquela de quem recrutou dois indivíduos destes para uma expedição de 1 trilhão. Outras atitudes pouco inteligentes comuns de filmes do gênero, como mexer em seres alienígenas sem a segurança apropriada, ter reações biológicas estranhas no organismo e, como primeira reação, esconder isso dos outros ou correr na direção da sombra de objetos que estão caindo, claro, também surgem em Prometheus.

Outro problema grave do longa é o grande número de personagens. Chance (Elliott), Ravel (Wong) e Janek (Elba), por exemplo, poderiam ser resumidos apenas nesse último, assim como Milburn e Fifield poderiam ser sintetizados no geólogo – cuja verdadeira função no roteiro na verdade, também é relacionada aos personagens em excesso. Com isso, várias tramas soam inúteis e parecem abandonadas. Mesmo tripulantes mais relevantes, como a representante da corporação que realiza a expedição, Vickers (Theron), e o próprio Charlie, embora mostrem potencial, acabam sendo menos aproveitados que deveriam em meio às discussões pretensiosas da trama – basta dizer que o momento mais marcante de Vickers é a reciclagem de uma velha piada envolvendo mulheres muito frias. Os únicos personagens realmente indispensáveis do filme, na verdade, são Shaw e o andróide David (Fassbender) – isso sem falar, claro, da função do falecido Peter Weyland (Pearce), idoso que patrocinou a expedição visto em um bem feito holograma – em uma maquiagem nada convincente que deixou Guy Pearce mais parecido com extraterrestres que com homens muito velhos.

Shaw e David são os principais representantes das alegorias entre criador e criatura que o filme pretende discutir.  Ela, como uma crédula (demais) cientista que parece a única tripulante a ter a humildade de questionar-se sobre onde errou e por que os criadores Engenheiros se voltaram contra os humanos (o filme flerta de forma tola e superficial com a sugestão de isso ser fruto de ela não poder criar vida). Ele, uma espécie de Pinóquio futurista, como elemento de uma metáfora mal desenvolvida sobre a dicotomia criador-criatura do ser humano. A função principal de David acaba sendo de Deus ex-machina, elemento utilizado para solucionar problemas difíceis de forma preguiçosa, como comunicar-se com os Engenheiros, traduzir línguas antigas e explicar determinadas analogias ao público. Apesar das fragilidades dos protagonistas, eles são muito ajudados pelas interpretações convincentes de Noomi Rapace – que, apesar da coragem e determinação, pouco lembra a Lisbeth Salander da versão sueca da trilogia Millennium ou a cigana Sim, de Sherlock Homes – e Michael Fassbender, cada vez mais sólido como um dos grandes nomes da nova geração hollywoodiana. Ambos conseguem tornar seus personagens factíveis em meio à confusão.

A direção segura de Scott nos aspectos técnicos também ajuda a salvar o longa do desastre – ou, ao menos, o ameniza. A fotografia e o trabalho de som (tanto edição quanto mixagem) enchem os olhos e ouvidos desde a espetacular primeira cena, trazendo o fascínio que o universo abordado deve exercer, e mantêm-se regulares em todo o filme. A montagem consegue manter o ritmo mesmo na salada de personagens e situações desnecessárias criadas pelo roteiro. Finalmente, o diretor prova mais uma vez sua capacidade de conduzir eficientemente cenas de suspense e ação, fazendo com que sequências como a da ventania (mesmo sendo absolutamente desnecessária para a trama) ou a do grupo buscando os tripulantes desaparecidos gerem muita tensão.

É uma pena que estes elementos sejam usados para servir a uma história pretensiosa e com pouco conteúdo, cujos momentos mais emocionantes são os que trabalham com a nostalgia do espectador e as relações com Alien – o Oitavo Passageiro – embora mesmo a relação principal entre os longas não seja bem solucionada pelo final de Prometheus, pedindo uma sequência para que seja explicada e as lacunas se fechem. Fica a esperança de que, se for lançado, este novo filme esteja mais à altura da história de Ridley Scott e do universo que ele aborda. É verdade que tal esperança não se justifica ao observar os rumos que o diretor deu para sua carreira. Entretanto, como ocorreu em Prometheus e vem ocorrendo nos comentários sobre a anunciada sequência de Blade Runner, quando se trata de Scott, seu fã abre mão de toda a lógica e simplesmente escolhe acreditar.

Será que era essa a grande metáfora personificada por Elizabeth Shaw?

Cotação: **

MIB³ – Homens de Preto 3 (Men in Black III) – 2012, EUA. Direção: Barry Sonnenfeld. Elenco principal: Will Smith, Tommy Lee Jones, Josh Brolin, Jemaine Clemente, Michael Stuhlbarg, Emma Thompson, Mike Colter, Alice Eve, Lanny Flaherty. Duração: 106 minutos.

Sinopse: Após passar mais de 40 anos na cadeia Lunar Max, Boris volta no tempo planejando matar o Agente K antes de sua prisão. Ao descobrir o plano, o Agente J também viaja para o passado, visando impedi-lo.

Quando surgiu o primeiro Homens de Preto, em 1997, seu grande trunfo era a originalidade. Descobrir, junto com o Agente J (Smith), os inúmeros segredos e tecnologias daquele universo era impagável. A fonte, contudo, foi muito explorada e a franquia não soube se reinventar – a continuação foi aborrecida e soou como um caça-níqueis. MIB³, lançado uma década depois, consegue ser mais divertido que o anterior – mas não menos descartável.

O filme começa com a fuga da cadeia Lunar Max do vilão Boris (Clemente), em uma excelente sequência. Boris procura Obadias Prince (Flaherty), comerciante que possui um dispositivo que permite a viagem no tempo, e volta a 1969 visando impedir o Agente K (Lee Jones/Brolin) de prendê-lo e cortar o seu braço. Na noite seguinte, o Agente J acorda e se depara com o sumiço do parceiro e uma invasão boglodita à Terra. Com a ajuda da Agente O (Thompson/Eve), ele descobre o que aconteceu e também procura Prince para viajar ao dia anterior à volta do vilão, planejando matar sua versão jovem para salvar o parceiro e impedir todos os acontecimentos sucessivos.

Uma trama absolutamente convencional de viagem no tempo, portanto – e que não se esforça para trazer criatividade ao formato. Ao contrário: MIB³ investe em diversos clichês do gênero. Ao se dar conta do sumiço do parceiro, por exemplo, o Agente J acusa todos que o cercam de protagonizarem uma brincadeira. Mais à frente, quando volta no tempo, tem de lidar com a incredulidade inicial da versão jovem do Agente K. Há ainda o clássico momento em que o homem do futuro faz ao amigo do passado uma revelação forte (com direito à música melodramática). Finalmente, não falta a tradicional brincadeira com um resultado esportivo inesperado de um time da “vida real”. Nada muito original, portanto – somente mais do mesmo em uma nova embalagem.

Se não consegue ser criativo, ao menos MIB³ sabe entreter ao trazer para seu universo as diferenças usuais entre dois tempos diferentes da história. É divertido ver o contraste entre o design das sedes dos Homens de Preto nos diferentes momentos no tempo, ou a precariedade dos recursos tecnológicos usados pelos agentes no passado – como o imenso neuralizador, sua versão com fio ou o enorme celular. O efeito utilizado para a viagem no tempo (realizada ao longo de uma queda do alto de um prédio, com o viajante passando por alguns momentos históricos, desde os dinossauros) também é inovador, bem executado e merece elogios. O visual retrô dos extraterrestres à época, por sua vez, é impagável. Destacam-se, ainda, as brincadeiras com celebridades do passado como Andy Warhol e Mick Jagger.

Além das brincadeiras relativas à época, há outros bons – mas pontuais – momentos cômicos. A piada de uma garotinha que bebia leite achocolatado é ótima, e o Agente J diverte ao tentar justificar o fato de ter identificado os Agentes K e O. Também é digno de nota o momento em que os astronautas que iriam à lua afirmam que não pretendem comunicar a confusão vista junto à nave – uma bem-humorada satisfação (ainda que frágil) que os longas não costumam dar ao público sobre um possível furo de roteiro. É preciso que se diga, contudo, que alguns momentos cômicos de MIB³ beiram o constrangimento e lembram o longa anterior da série – por exemplo, a cena em que a Agente O faz um discurso parafraseando Zed ou a sequência em que eles jogam boliche com a cabeça de um extraterrestre.

O filme opta conscientemente por manter-se em um tom sempre leve e divertido, o que às vezes beira o descompromisso e prejudica a coesão da trama ou boas ideias que poderiam ser mais exploradas (como o racismo que o Agente J sofre no passado, assunto que a trama ameaça encarar de forma séria e abandona posteriormente). O roteiro soa preguiçoso ao não explicar, por exemplo, como Boris sabia que encontraria o archamano Griffin (Stuhlbarg) em determinado local, ou por que o Agente J não reage da mesma maneira que as demais personagens aos ataques do vilão. Mais grave: a explicação sobre a grande questão que o filme pretendia responder, o porquê da sisudez do Agente K, soa bastante frágil. Sem dúvidas, a personagem vê-se envolvida em um incidente particularmente trágico – mas um agente do seu nível certamente passou por outras situações muito marcantes em sua trajetória, não havendo justificativas para abalar-se tão severamente somente com aquela específica. Além disso, a solução envolve um revelação que mostra-se previsível.

Se o longa consegue sobreviver a estes problemas, grande parte dos méritos é da atuação de Josh Brolin, um excelente ator um tanto subestimado. Brolin é absolutamente convincente ao criar uma versão jovem de Tommy Lee Jones (que vai novamente bem, com menos destaque que nos anteriores) sem em nenhum momento soar como uma imitação caricatural. Ele realmente parece ser o Agente K de décadas anteriores, menos irritado e mais bem-humorado. Will Smith, por sua vez, sente-se tão à vontade no papel que parece atuar no piloto automático, especialmente nos momentos em que tenta fazer rir, muitas vezes artificiais.

Quanto aos demais intérpretes, merece destaque o ótimo Michael Stuhlbarg, ator em ascensão que merece a atenção do público. Stuhlabarg transforma Griffin – que poderia parecer mero deus ex-machina, um elemento “jogado” na trama somente para guiar os protagonistas – em um personagem complexo, carismático e intrigante. Jemaine Clemente, por sua vez, brilha como o assustador Boris – um excelente vilão infelizmente desperdiçado pelo roteiro, tanto em tempo em cena quanto em inteligência e eficiência nas suas ações. Finalmente, é uma pena que uma atriz como Emma Thompson seja utilizada em um papel tão frágil e desnecessário, cuja cena mais notável é o bobo discurso em que parafraseia Zed.

MIB³, portanto, entretém, tem bons momentos e diversos elementos elogiáveis. Não consegue, porém, ir além disso. Acaba se tornando um bom passatempo, o chamado “filme pipoca”, capaz de divertir o público sem ofender sua inteligência – mas também sem estimulá-la. Não é um resultado ruim – mas o criativo universo dos Homens de Preto é capaz de ir muito além.

Cotação: ***

Hoje, 06 de Maio de 2012, o Luz, Câmera, Redação! completa 01 ano. Para comemorar, uma inauguração: a Coluna 6 Estrelas.

Coluna 6 Estrelas traz análises – mais detalhadas que o habitual – de filmes especialmente marcantes da história do Cinema. Por serem textos mais minuciosos, haverá spoilers – portanto, se você ainda não assistiu a um filme abordado na coluna, não leia a crítica.

Para inaugurar, analiso o filme que mais me impactou na minha vida de cinéfilo, a arrebatadora obra-prima Laranja Mecânica. Obrigado aos amigos e leitores que me presentearam com visitas, comentários e apoio neste primeiro ano do site. A coluna é uma retribuição a vocês.

Sem mais, pois Kubrick nos espera.

Laranja Mecânica (Clockwork Orange, A) – 1971, Reino Unido/EUA. Direção: Stanley Kubrick. Elenco principal: Malcolm McDowell, Patrick Magee, Warren Clarke, Michael Bates, Adrienne Corrii, Miriam Karlin, James Marcus, Aubrey Morris, Sheila Raynor, Anthony Sharp, Philip Stone, Paul Farrell, Godfrey Quigley. Duração: 137 minutos.

Sinopse: Condenado à prisão por assassinato, Alex é submetido ao tratamento Ludovico, uma terapia que visa criar no paciente aversão física à violência.

Atenção: contém spoilers.

Laranja Mecânica é um marco na história do cinema e da arte. A influência da obra, adaptada de um livro homônimo de Anthony Burgess, é enorme e não se limita à Sétima Arte: o filme inspirou a música, a televisão, a literatura e chegou a virar apelido de uma seleção de futebol – a Holanda de 1974. Trata-se de um longa atemporal, capaz de atravessar décadas sem perder o impacto ou a força das discussões que oferece ao espectador.  Isto não acontece por acaso: é fruto de uma rara combinação de uma história absolutamente impactante, repleta de metáforas e leituras possíveis, com uma direção virtuosa de um dos maiores mestres do assunto, Stanley Kubrick.

A trama

Laranja Mecânica é protagonizado e narrado por Alex (McDowell), um jovem psicopata  fascinado por sexo, Beethoven e ultraviolência, absolutamente desprovido de compaixão ou respeito pela sociedade. No primeiro ato do filme, Kubrick concentra-se em mostrar para o espectador o quão repugnante é a personagem. Alex e seus amigos – que ele chama de drugues – espancam um mendigo (Farrell), dirigem irresponsavelmente provocando inúmeros acidentes, estupram a mulher de um escritor idoso, o Sr. Alexander (Magee), em sua frente – após enganar o casal pedindo ajuda, brigam na rua com outra gangue. Em todos esses atos, o grupo se diverte imensamente, gargalhando e cantando debochadamente. Desacompanhado, o protagonista não é menos reprovável: engana os pais e o consultor pós-correicional e agride uma senhora em um spa (acabando por matá-la). Em nenhum momento o longa torna seus atos perdoáveis sob qualquer perspectiva ou explica o que o leva a se comportar desta forma. É de sua natureza, o que é refletido até por seu nome (Alex – prefixo de negação grego ‘a’ acompanhado de ‘lex’, lei em latim – portanto, a antítese da lei).

                    

Alex, porém, é traído pelos parceiros – traição cuja semente foi plantada pela própria personagem, ao bater no drugue Dim (Clarque) após ele debochar de uma mulher cantando a 9ª Sinfonia de Beethoven – e acaba preso. Na cadeia, o protagonista passa dois anos auxiliando o padre (Quigley) para proteger-se até que, voluntariamente, torna-se cobaia do Tratamento Ludovico – uma terapia promovida pelo Governo (representado pelo Ministro do Interior, Fredrich [Sharp]) como forma de combate à criminalidade e à superlotação carcerária. No tratamento, um equipamento ligado ao cérebro do paciente causa fortes vertigens e um profundo mal estar enquanto ele vê imagens violentas e sexuais em uma tela, visando criar uma associação entre as coisas e impedir que a pessoa pratique a agressividade a partir daí – não por qualquer aprendizado moral, mas por impossibilidade física. A técnica é bem sucedida – Alex torna-se absolutamente incapaz sequer de reagir à violência alheia.  Involuntariamente, acaba também ligando ao mal estar o quarto movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven, executado durante um dos vídeos.

Então, como em um reflexo da vida que levava, cruza por acaso o caminho de quem havia agredido antes de ser preso e acaba sendo vítima de todos – o mendigo, seus drugues, o sr. Alexander. Este último não reconhece Alex de imediato, pois a personagem estava de máscara quando o atacou, e pretende usá-lo politicamente – era da oposição do governo e sabia estar diante da cobaia do Tratamento Ludovico. Contudo, quando o jovem canta Singin’ in the Rain em uma banheira, música que cantava e dançava durante a agressão, o escritor imediatamente faz a associação e induz o protagonista à tentativa de suicídio ao prendê-lo em um quarto e executar a 9ª Sinfonia.

Alex, contudo, não morre – ao acordar em um hospital, lembra-se de um sonho envolvendo uma cirurgia cerebral. O protagonista volta a ter o tom debochado e cínico de antes do Tratamento – é sarcástico com os pais, volta a usar uma linguagem descontraída e responde agressivamente a questões de um teste feito com uma psiquiatra. Entra no quarto, então, o Ministro do Interior, propondo ao protagonista uma parceria – em troca de apoio (já que a imprensa e a sociedade haviam se voltado contra o Método Ludovico), daria um bom emprego ao jovem, o que ele imediatamente aceita. Finalmente, o longa nos mostra uma fantasia de Alex fazendo sexo em meio ao aplauso de homens e mulheres vitorianos, enquanto o protagonista/narrador decreta: “Eu estava curado”.

Alex, uma Laranja Mecânica

“Tão bizarro quanto uma laranja mecânica”. É desta estranha expressão anglo-saxã que Anthony Burgess retirou o nome do livro que inspirou a obra-prima de Stanley Kubrick. Burgess, contudo, não optou por este título somente para sugerir que sua história é bizarra. A escolha foi mais ambiciosa: retratou, com brilhantismo, o delicado conflito entre natureza e condicionamento comportamental de que trata sua trama.

A laranja é inequivocadamente um elemento puro da natureza – ou ao menos era, deixando de lado a transgenia, que não existia quando o livro foi lançado e apenas engatinhava na época do filme. Embora existam diversas variações, todas são naturais. Se o homem pudesse interferir na fruta e transformá-la em algo “mecânico”, ela continuaria sendo uma laranja? Em outras palavras, até que ponto modificações artificiais em um objeto puramente natural mantêm a essência deste objeto?

Alex, como dito anteriormente, é a antítese da lei, a personificação da violência e do sadismo – algo jamais justificado ou nunca mostrado como passível de reversão. Através do Tratamento Ludovico, torna-se o oposto do que era antes – alguém incapaz de fazer qualquer mal.  A transformação é absolutamente artificial – não há a menor alteração nos seus instintos, como o próprio narrador deixa claro ao ver uma mulher nua e dizer que desejava possuí-la naquele mesmo momento, no chão, embora não consiga. Alex tem a natureza bloqueada pela modificação humana. É, o protagonista, a própria laranja mecânica do título – o que fica claro no dicionário Nadsat, a língua inventada pelo autor, que traduz “orange” como “homem”, opção provavelmente decorrente da semelhança entre o nome da fruta, em inglês, e o nome “orangotango” (orangutan, em inglês), animal que se assemelha ao homem.

E um indivíduo de natureza mecânica continua sendo um homem? O que define um indivíduo é sua essência ou a externalização desta essência, o seu comportamento? É esse o questionamento trazido pelo padre do presídio, personagem chave desta discussão, que diz categoricamente para Alex: “bondade é escolha. Se você não tem escolha, você não é homem”. Um ataque direto ao Behaviorismo, campo da psicologia desenvolvido por John Watson que se opunha à psicologia mental por defender que o objeto de estudo de sua área devia ser o comportamento, não a consciência.

                    

Sem trazer respostas prontas, Laranja Mecânica provoca reflexão sobre o assunto. À primeira vista, o Tratamento Ludovico parece uma solução positiva. Alex era voluntário, sairia da cadeia e não mais cometeria os atos que o tornavam repugnante. Ademais, a única voz dissonante era de um homem mais preocupado com aspectos religiosos que práticos de suas opiniões – tão identificado com sua fé que sequer tem o nome dito no longa, sendo caracterizado apenas como padre. Depois da terapia, contudo, o protagonista se torna vítima fácil da violência que antes praticava. Alex fica absolutamente frágil – o que chega a despertar a simpatia do espectador pela personagem que antes detestava, em um belo exemplo da identificação que a fragilidade pode provocar – o que é fortalecido pelo ótimo trabalho de Malcolm McDowell, que transforma a expressão de maneira a quase se tornar outra pessoa. O público passa a ter pena do anti-herói – e, possivelmente, questionar a validade ética do Tratamento.

É aí, contudo, que o filme dá outra reviravolta. Após Alex ser vítima de um ato de violência extrema – ser induzido à tentativa de suicídio – a população passa a ser contra o Tratamento que antes apoiava. O governo, então, muda de lado com a facilidade que lhe é peculiar e, buscando seu apoio, altera novamente o cérebro do protagonista, levando-o novamente ao estado original. McDowell, então, novamente dá um espetáculo de atuação ao, preso em uma cama e cheio de bandagens, retratar a violência e o sarcasmo que volta a guiá-lo somente no olhar e na maneira de comer – agora, contudo, com um bom emprego público e o aval da sociedade, como mostra sua visão psicodélica sendo aplaudido por damas e cavalheiros distintos ao fazer sexo com uma mulher. Fica claro que, com dinheiro e apoio, a repugnante natureza violenta de Alex terá ainda mais espaço para manifestar-se. E isso desperta novamente dúvidas sobre as vantagens dessa “volta às origens”.

                    

Afinal, será que é realmente válido preservar uma natureza que agride o Estado? Ao longo do filme, ouvimos duas vezes que Alex está sendo, de alguma forma, curado. Na primeira, a manifestação vem de um terceiro, uma assistente do médico que aplica o Tratamento: “Pessoas boas sentem medo e náusea com violência, você só está ficando saudável”. Na segunda, quem diz é o próprio narrador, em sua última fala: “Eu estava curado mesmo”. Evidentemente, a primeira cura é social, a segunda, pessoal.  De certa forma, o governo inicialmente deixa Alex doente como indivíduo para torná-lo saudável socialmente – e depois inverte o processo. O questionamento é: qual o limite de restrição de natureza individual em benefício da sociedade?

Finalmente, é interessante observar ainda as alterações na forma com que o protagonista é chamado e como isso reflete seu papel ao longo da trajetória. Inicialmente, quando era a oposição da lei em estado puro, era apenas Alex. Após a prisão, o roteiro, em uma notável ironia, flerta por um momento com a utopia de a cadeia ressocializar alguém ao dar pela primeira vez nome completo à personagem (Alexander DeLarge) para logo depois tirar completamente sua individualidade ao passar a tratá-lo por um número, 655321. Quando opta pelo tratamento, domesticado, passa a ser chamado de Alexander deLarge. Finalmente, após a cirurgia que recupera seu instinto violento, o Ministro o pergunta: “Posso chamá-lo de Alex?”.

Uma pergunta que fecha um círculo na trajetória do protagonista, amarra sua história com grande elegância e torna o arco dramático de Alex um dos mais fascinantes e inteligentes da história do cinema.

Direito e Política

Além de confrontar indivíduo e sociedade, outros aspectos interessantes de Laranja Mecânica são a discussão que suscita sobre a função da pena no Direito e a poderosa metáfora sobre a forma como geralmente dá-se o jogo político na sociedade.

Ao aceitar ser paciente voluntário do Tratamento Ludovico, o protagonista imediatamente sai da cadeia. O raciocínio é simples: se ele não mais representará uma ameaça para a sociedade, não precisa estar preso. O diretor da prisão (Michael Gover), porém, discorda e assina sua liberação a contragosto. Para ele, o Estado deveria se vingar de Alex – “olho por olho, eu digo. Se alguém bate em você, você revida, não é? Por que o Estado, severamente agredido por vocês, hooligans, não deveria revidar? A nova política é dizer não. A nova política quer transformar o mal em bem. Tudo isso me parece tremendamente injusto”.

Esta dualidade nada mais é que o confronto entre a função absoluta e relativa da pena, também chamadas, respectivamente, função retributiva e prevencionista. Para a absoluta, defendida por Kant, a pena deveria retribuir moralmente a agressão feita pelo contraventor – portanto, ainda que ele deixe de representar uma ameaça para a sociedade, deve ser punido. Já quem defende a postura relativa pensa que a pena deve somente prevenir novos crimes – logo, se Alex é incapaz de novos atos violentos, deve ser solto. Mais uma vez, o filme não traz respostas a respeito – apenas provoca no espectador o questionamento e a reflexão.

A política, por sua vez, é representada principalmente pelo Ministro do Interior, Fredrich. Representante do Estado, o Ministro em nenhum momento preocupa-se com as consequências éticas do Tratamento Ludovico ou com o bem-estar do protagonista ou da sociedade. Seu foco é somente a manutenção do poder. Quando recruta os presos para a terapia, diz algo que, embora fundamental para a compreensão de seu papel, muitas vezes passa despercebido pelo espectador: está promovendo o tratamento não pela diminuição da criminalidade, mas pela redução da população carcerária. O objetivo? Abrir espaço para presos políticos. Fica evidente, aí, o espírito totalitarista do Governo em questão – o que é fortalecido quando, no fim do longa, Fredrich diz para Alex que o Sr. Alexander, representante da oposição, está preso, “para a própria proteção e a sua”.

O Sr. Alexander, a propósito, é outra personagem bastante interessante do ponto de vista político. Inicialmente, o escritor surge em cena frágil e vítima de violência, o que, novamente pelo fenômeno da identificação, atrai a simpatia do espectador. Mais à frente, quando o protagonista retorna à sua casa, revela-se que ele é envolvido com política e membro da oposição – e ele se mostra tão sem escrúpulos em relação a Alex quanto Fredrich. Antes de reconhecer seu agressor, o Sr. Alexander mostra-se cordial com ele e solidário em relação às consequências ruins do tratamento, como não conseguir mais ouvir determinado trecho de Beethoven. Logo em seguida, porém, revela em um telefonema que seu interesse é somente usá-lo como arma para o partido da situação não ser reeleito – e diz algo particularmente significativo sobre sua forma de enxergar a política: “A liberdade precisa ser defendida, ela é tudo. Pessoas comuns vendem sua liberdade por uma vida tranquila. Por isso, precisam ser lideradas, empurradas”.

                    

Após reconhecer Alex, porém, o Sr. Alexander não mais consegue tratá-lo com a cordialidade necessária para seus objetivos – embora tente. Ainda assim, com a ajuda de outros membros da oposição, droga o protagonista e o coloca em um aposento no andar superior ouvindo o quarto movimento da 9ª Sinfonia de Beethoven- o que acaba por induzi-lo ao suicídio. O gesto, extremamente violento, é praticado justamente por alguém vitimado por uma violência também extrema, o que torna o escritor uma espécie de anti-reflexo de Alex – não à toa, ambos se chamam Alexander. É interessante observar também que o filme não mostra se os outros opositores sabiam que o jovem era quem havia agredido o escritor, o que, somado ao telefonema, sugere que aquele plano seria executado independente do reconhecimento e da vingança em que se transforma.

Há ainda outras metáforas políticas interessantes. Laranja Mecânica ironiza a figura do consultor pós-correicional através do bizarro Sr. Deltoïd (Morris). Além de inicialmente mostrar-se consciente de que Alex continuava cometendo atos de violência e preocupado somente em aquilo não ser descoberto, o consultor, quando o protagonista é pego, anuncia que ele é um assassino com um sarcasmo e descaso semelhante ao dos drugues – e chega a cuspir em seu rosto. Finalmente, a burocracia do Estado moderno é satirizada pela complexa rotina executada quando Alex é preso ou sai da cadeia – ele e o médico que vai buscá-lo têm de assinar diversos documentos.

                   

Stanley Kubrick

Se a abordagem de tantas discussões interessantes faz de Laranja Mecânica uma grande história, é a direção impecável de Stanley Kubrick e sua condução dos elementos técnicos que transformam esta trama em um dos maiores filmes da história do cinema.

Um dos pontos mais interessantes do trabalho de Kubrick é a lógica construída na maneira como Alex é enquadrado. Inicialmente, o diretor mantém a câmera levemente acima dos olhos do protagonista e este de cabeça baixa e olhar para cima, tornando sua figura ainda mais assustadora – enquanto isso, suas vítimas geralmente estão no chão e são filmadas de cima para baixo, mostrando fragilidade. Quando a personagem é presa, a câmera passa a enquadrá-la de frente. Já durante o Tratamento Ludovico, com Alex em processo de transformação, a câmera volta a estar levemente acima dos seus olhos – mas eles estão escancarados, o que tira o aspecto ameaçador. Depois, quando se torna vítima da violência que antes praticava, é ele quem passa a estar constantemente no chão e sendo visto de cima. Além disto, constantemente as personagens são fotografadas simetricamente, criando elegantes quadros.

Não é somente no enquadramento que Kubrick cria uma interessante lógica visual envolvendo os diferentes momentos da trajetória do protagonista. Na primeira cena violenta do longa, quando os drugues vão agredir um mendigo, o grupo é visto primeiro através de suas enormes e ameaçadoras sombras. Quando as duas personagens se reencontram e Alex é levado para o meio de outros moradores de rua, novamente surgem as sombras. Da mesma forma, se Alex antes atacou os parceiros Dim e Georgie (Marcus) os derrubando na água, posteriormente é afogado quando o caminho dos três volta a se cruzar. É interessante, também, a repetição do travelling utilizado nos dois momentos em que o Sr. Alexander surge em cena – e a surpresa decorrente de, no segundo, ele estar em cadeira de rodas e acompanhado não mais da esposa, mas de um jovem rapaz.

                    

O diretor também executa um trabalho de mise-in-scène notável. A movimentação dos atores na sequência de agressão ao Sr. Alexander ou no momento em que Alex agride os amigos e os joga na água (beneficiado pela câmera lenta), por exemplo, é admirável e contribui para que as cenas sejam, até hoje, marcos na história do cinema. Isto sem falar na brilhante cena onde o protagonista faz sexo com duas moças (a única vez em que isso ocorre voluntariamente), mostrado através de diversos e ágeis flashs em ritmo acelerado. Além disto, o elenco de Laranja Mecânica é uniformemente impecável e contribui definitivamente para o sucesso do longa.

                    

A trilha sonora de Laranja Mecânica é um espetáculo à parte. Belíssima, grandiosa e quase toda integrada por música clássica, traz um contraste fascinante entre a delicadeza de seus movimentos e a repugnância do que está sendo visto. O contraste mais marcante entre música e violência, porém, não se dá com o clássico, mas com Alex cantando Singin’in the Rain enquanto agride o casal Alexander – uma das cenas mais marcantes da história do cinema. É Singin’in the Rain, a propósito, que surge durante os créditos – uma fina ironia de Kubrick prevendo a volta da ultraviolência praticada por seu protagonista.

O filme é impecável também nos figurinos. É claro que as debochadas roupas vestidas por Alex e seus drugues são inquestionavelmente marcantes – não à toa, inspiram festas à fantasia até hoje. Mais interessante, porém, é observar a lógica impressa nas cores com que o protagonista se veste. Alex começa o longa usando branco. Passa a usar roupas escuras quando preso. Ao longo do tratamento, quando acredita estar ganhando a liberdade, volta a usar branco. Depois, ao ver que está, de certa forma, preso no próprio corpo, voltam os tons escuros. Ao fim, após a cirurgia, novamente o branco – das ataduras e faixas que o vestem no hospital.

A direção de arte, por sua vez, cria cenários muito impactantes. A leiteria Jorova, com suas paredes escuras e estátuas de mulheres nuas, é marcante. Também chamam a atenção as casas iluminadas e modernas das vítimas Alexander e a “mulher-gato” (Karlin) – esta última, em particular, faz-se notar pelo excesso de objetos relacionados a sexo – algo que provoca, é claro, o deboche de Alex. O apartamento futurista e colorido do protagonista marca pelo contraste com os tons pretos e brancos que permeavam o filme até então. Seu quarto é um reflexo de sua personalidade: um quadro de Beethoven, outro com uma mulher nua e uma estátua provocadora de Cristo – composição parecida com a cela onde fica na cadeia, trocando apenas a estátua por um crucifixo, já que está auxiliando o padre.

                   

Portanto, se as discussões que traz já fazem de Laranja Mecânica um longa genial, é graças à brilhante combinação dos elementos técnicos, orquestrados por um mestre, que o filme é um grande marco na história do cinema.

As Cores do Mundo Real

“É engraçado como as cores do mundo real só parecem realmente reais quando você as videia numa tela”. A constatação de Alex ao iniciar o Tratamento Ludovico evidencia o fascínio que a Sétima Arte é capaz de exercer e homenageia o próprio filme que a enuncia.

O debate sobre o que determina psicologicamente o indivíduo, seu consciente ou a manifestação deste consciente, sua mente ou seu comportamento, existe no “mundo real”. Da mesma forma, os questionamentos sobre os limites da interferência estatal sobre a individualidade são presentes no cotidiano e permeiam discussões sobre, por exemplo, a validade das penas restritivas de liberdade ou de morte. Também a função da pena é assunto recorrente e socialmente relevante. Finalmente, o fato de a política ser comumente regida mais por interesses que por princípios é um problema que afeta diretamente cada cidadão.

É verdadeiramente incrível, então, que o “mundo real”, quando projetado em uma tela branca, torne-se tão mais fascinante que no cotidiano. Grandes diretores, graças ao brilhantismo com que usam os inúmeros recursos possíveis do audiovisual, conseguem refletir o universo do espectador de forma mais profunda e intensa que a própria realidade. Kubrick, sem dúvidas, foi um dos grandes – para muitos, o maior.

Dada a densidade da obra que adaptou, portanto, o resultado não poderia ser diferente: Laranja Mecânica é mais que um filme – é um impactante estudo do indivíduo e da sociedade. Um trabalho grandioso e destinado a exercer influência sobre a arte e fascínio nos espectadores durante muito tempo.

Cotação: ******

Vingadores, Os

Vingadores, Os (The Avengers) – 2012, EUA. Direção: Joss Whedon. Elenco principal: Robert Downey Jr, Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Stellan Skarsgard. Duração: 142 minutos.

Sinopse: Loki, irmão de Thor, rouba o cubo Tesseract, uma poderosa fonte de energia. A partir daí, o diretor da agência de espionagem SHIELD, Nick Fury, reúne Capitão América, Homem de Ferro, Thor, Hulk e Viúva Negra para defenderem a Terra.

Reunir personagens notáveis do cinema para formar uma equipe não é uma tarefa fácil. É grande o risco de o conjunto soar como uma colcha de retalhos, uma coletânea de individualidades disputando espaço em cena, cada uma tentando não ser ofuscada pela outra. No último projeto da Marvel, ocorre o contrário: o grupo formado em Os Vingadores funciona perfeitamente e, mais que manter, valoriza o brilho de cada herói. Desta forma, o filme é Gestalt em estado puro – o todo é maior que a soma das partes. É aí que reside o seu triunfo.

O mérito do filme começa na escolha do roteirista e diretor, Joss Whedon. Ciente do elenco estelar que tinha em mãos, a Marvel sabia prescindir de status neste nome. Optou, então, por um caminho muito ousado, ao menos à primeira vista: deu o comando do maior projeto de sua história cinematográfica a um homem absolutamente inexperiente em direção de cinema, embora responsável por grandes sucessos na televisão. O principal motivo da decisão: Whedon é um fã apaixonado de quadrinhos e tem roteiros consagrados no formato. Desta forma, era razoável esperar que desse aos heróis o tratamento que os fãs esperavam. Além disso, escreveu o roteiro de Toy Story, longa que reúne duas características buscadas para Os Vingadores: renovou o seu gênero (no caso, a animação) e conseguiu destacar o carisma e o charme de um grupo grande de personagens, reunidos no mesmo longa – embora, ali, o protagonismo fosse de apenas dois.

Ainda assim, era uma aposta arriscada do estúdio – e, como toda aposta nestes moldes quando é bem sucedida, rendeu grandes frutos. O primeiro acerto de Whedon está na simplicidade do roteiro. O irmão de Thor (Hemsworth), Loki (Hiddleston), sedento por vingança, rouba da agência SHIELD um poderoso artefato – o cubo Tesseract. Este cubo lhe dá grande poder – por exemplo, possibilita o controle das mentes do dr. Erik Selvig (Skarsgard) e do Gavião Arqueiro (Renner). Com eles e os alienígenas Chitauri, Loki planeja a invasão e o domínio da Terra. Para contê-los, o diretor da agência, Nick Fury (Jackson), promove a reunião dos heróis Capitão América (Evans), Homem de Ferro (Downey Jr), Thor, Hulk (Ruffalo) e Viúva Negra (Johansson).

Nada particularmente original, portanto – o que, aqui, é uma vantagem. Dispensando uma trama excessivamente elaborada, Whedon permite que o foco do longa fique sobre o carisma dos protagonistas e a interação entre eles, o que sempre foi o maior atrativo do projeto – e, neste aspecto, Os Vingadores é absolutamente bem sucedido. Os traços típicos de personalidade das personagens, quando vistos em contraste diante de semelhantes, tornam-se mais acentuados e interessantes. Da mesma forma, os poderes dos heróis são mais bem ressaltados ao trabalharem em equipe – como não precisam mais combater sozinhos os adversários e cumprem papéis distintos nos desafios que enfrentam, suas habilidades ficam bem mais claras. Com isso, o filme consegue dar a cada protagonista um brilho ainda maior que tinham tido nos “projetos solo” anteriores.

Outro acerto de Whedon está no humor bem sucedido (que em nada lembra as péssimas tentativas de piadas de Thor) que permeia o filme, manifestado principalmente pela irreverência com que trata o universo Marvel e os longas anteriores – muito através de Tony Stark (o Homem de Ferro), mais sarcástico do que nunca ao ser confrontado com semelhantess. O “gênio, bilionário, playboy e filantropo” não poupa ninguém: ridiculariza as roupas de Thor e o tapa-olho de Fury, desafia a liderança do Capitão América, associa o Gavião Arqueiro a outro conhecido personagem do cinema e tenta provocar a fúria de Bruce Banner (o Hulk) – e é sempre divertido, muito graças ao ótimo timing cômico de Downey Jr. Não é só ele, contudo, que faz rir: há outros momentos hilários, como excelentes gags envolvendo o deslocamento temporal do Capitão América ou a brutalidade de Hulk.

Hulk e Bruce Banner, a propósito, conquista(m) enorme simpatia do público – o que não tinha acontecido nos dois filmes anteriores que protagonizou. É verdade que a capacidade do personagem controlar-se surge muito subitamente (algo que é atenuado, mas não justificado, pela voluntariedade ou não de suas transformações), mas isso nem de longe tira o seu brilho. Os motivos para o sucesso são vários. Em primeiro lugar, há o tom cômico que Whedom traz aos efeitos da brutalidade do personagem – com destaque para duas cenas, uma envolvendo Loki, outra ao lado de Thor. Além disso, a interpretação de Mark Ruffalo é precisa – o ator retrata Banner como um nerd tímido, mas com momentos de irreverência quase involuntária (a cena em que surge em uma moto é hilária), e transparece com eficiência o orgulho que o cientista tenta disfarçar do monstro verde em que se transforma – algo que é inteligentemente estimulado por Stark, em outro exemplo em que a relação entre os heróis acentua suas personalidades. Finalmente, a dimensão de sua força fica bem mais evidente ao lado dos parceiros (“Nós temos um exército” – “Nós temos o Hulk!”).

Assim como Hulk, o Capitão América mostra-se muito mais interessante que no fraco filme anterior. A sisudez do personagem, que beirava o desagradável, passa a ser tratada com descontração, tornando-o mais humano. Além disso, aqui o Capitão tem a possibilidade de efetivamente exercer a liderança que o caracteriza, já que havia agido sozinho nos momentos determinantes de O Primeiro Vingador. Thor, por sua vez, destaca-se por ter o universo de seu personagem como condutor da trama (que tem até o elogiável cuidado de justificar a ausência de seu interesse romântico, Jane), o que permite que tenha papel decisivo em momentos fundamentais do longa. Deste universo, inclusive, sai o vilão loser e megalomaníaco, Loki – novamente interpretado de forma brilhante por Tom Hiddleston.  Finalmente, o Gavião Arqueiro e a Viúva Negra, embora secundários em relação ao quarteto, ganham bastante espaço na trama a partir do desenvolvimento da relação entre eles, assim como na batalha final.

Além do humor, o conflito e alguns percalços também marcam a relação das personagens. Alguns embates – verbais e físicos – se tornam clássicos instantâneos. Lutas como a de Thor contra Homem de Ferro, Thor contra Hulk ou Gavião Arqueiro contra Viúva Negra, além de realizarem um sonho dos fãs (ver estes duelos em um filme), são justificadas pelo roteiro e muito bem coreografadas. Também as discussões entre os personagens no avião da SHIELD, possivelmente influenciadas pela presença do cetro de Loki, são marcantes – a destacar a travada pelo Capitão América com Tony Stark. Alguns incidentes também são impactantes – especialmente o destino trágico de determinado personagem. Todos estes elementos dão ritmo e dinâmica ao longa, que em nenhum momento é cansativo, apesar da duração maior que a média de filmes do gênero – méritos também de um excelente trabalho de montagem de Paul Rubell.

Tudo converge para a batalha final, em Nova York – momento em que o filme arrebata definitivamente o público. A dinâmica estabelecida pelo grupo até então valoriza a união que passam a demonstrar, o que empolga o espectador e marca definitivamente Os Vingadores como uma equipe, não um conjunto de individualidades. A liderança do Capitão América, a força descomunal do Hulk, a inteligência e irreverência do Homem de Ferro e sua capacidade de voar, a precisão do Gavião Arqueiro, o poder divino de Thor e a frieza e coragem da Viúva Negra – cada uma dessas características tem o seu papel e é ressaltada pelo apoio das demais. O único aspecto negativo da sequência é o fato de os alienígenas lembrarem, em sua maioria, vilões de video-game ao surgirem em enorme quantidade e serem aniquilados com extrema facilidade indigna dos poderes dos heróis – uma falha perdoável diante de tantas qualidades maiores.

Tecnicamente, a batalha é brilhante. Impressiona a sincronia das ações, em um trabalho de coreografia extremamente cuidadoso e sintonizado com a excelente montagem e a força da fotografia. Apesar do excesso de personagens envolvidos, é sempre fácil compreender o que está acontecendo e em que cada um está envolvido. Já a trilha sonora, sem chamar a atenção pra si, colabora fortemente com o ritmo da sequência. Finalmente, os efeitos visuais (não somente na sequência final, mas na produção como um todo) são um espetáculo e justificam o alto orçamento do longa – imergem completamente o espectador naquele universo e jamais lhe deixam lembrar que se trata somente de um filme.

Mesmo porque, para os fãs, Os Vingadores não é somente um filme – é a realização respeitosa e competente de um antigo sonho. Já para os demais espectadores, é uma espécie de portal para este sonho. Portal que se abre não através de um cubo, mas de algo que também é perigoso em mãos erradas e que também é capaz de transportar-nos, se bem utilizado, para outros universos: o cinema.

Cotação: *****

Observação: há uma cena adicional após os créditos.

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